A perspectiva sobre o que representa o 25 de Abril aos olhos de quem nasceu em liberdade

(São actualmente deputados mas há 47 anos ainda não eram nascidos. O TB quis saber a opinião dos eleitos (um por cada partido com representação na Assembleia Municipal da Guarda) sobre o 25 de Abril de 1974. Fique a saber o que pensam Marco Loureiro (BE), Miguel Nuno (PSD) e Paulisa d’Assunção (PS) sobre a “Revolução dos Cravos”. O CDS e a CDU não têm deputados na Assembleia Municipal da Guarda que tenham nascido depois do 25 de Abril de 1974. Leia aqui a opinião de Paulina d’Assunção.)

Foi dos livros, uns de História, outros de estórias, e das histórias contadas por quem foi contemporâneo da Revolução dos Cravos e – no caso concreto do meu Pai – dela foi protagonista, que foi crescendo em mim a percepção daquilo que foi o 25 de Abril e do significado que teve para um Povo, que, de tão oprimido que era, se não permitia sonhar nem falar. Ou sonhava. Apenas o que lhe era dito poder sonhar. E falava. Apenas o que lhe era dito poder falar.

Não cresci com o medo, a intolerância, a desconfiança, a miséria, o constrangimento ou a ignorância de um País fechado sobre si mesmo, nem com a guerra vã e desastrosa a que aquele regime ditatorial e antidemocrático deu causa, que destruiu e interrompeu as vidas de milhares de jovens – e dos seus familiares que os viam partir, alguns para não mais voltar – que foram enviados para o Ultramar para se oporem, pela força das armas, às pretensões daqueles povos que se viram obrigados a pegar em armas e lutar para conquistar a sua independência. Não vivi nesses tempos, mas aprendi, com quem neles viveu, a dar valor a algo que tinha por garantido e nem questionava: a Liberdade. Era apenas um conceito. Até aprender que foi uma conquista. Uma conquista dos que se atreveram a sonhar e a falar, para além do que lhes era permitido, e que com os seus sonhos e palavras abriram a todos o véu de um mundo novo: este nosso País em que hoje vivemos, graças à Revolução de Abril.

E se nos últimos 47 anos ia ficando mais distante aquele mundo que ficou para trás, hoje a geração pós-25 de Abril tem uma maior percepção daquilo que era a vida naquela época, por força da actual conjuntura de pandemia, com o decretamento do Estado de Emergência, que veio cercear – pese embora por motivos que ultrapassam a vontade política – as nossas liberdades mais básicas e que julgávamos não vir a perder nunca.

À nossa geração pós-25 de Abril, caberá a missão de se manter alerta, intolerante à intolerância, valorizando os pilares de uma sociedade livre, e ciente do perigo que é dar por garantida a nossa liberdade, do perigo que é deixar que a revolta e insatisfação que possam sentir contra certos aspectos do sistema político vigente – que entendem necessitar de reforma – seja aproveitada por partidos extremistas que tentam iludir os descontentes e fazer-lhes olvidar o Passado, pois o perigo em esquecê-lo está em que é tão fácil voltarmos a ele se começarmos a aceitar ideais em tudo idênticos aos que a Revolução quis ultrapassar.

Do perigo que é perder de vista os valores e princípios fundamentais que fazem hoje do nosso País um Estado de Direito Democrático.

Há que passar o testemunho da geração que sobreviveu ao regime do Estado Novo para as gerações vindouras, para que recordem aqueles tempos – esses tempos que não viveram, mas que podem vir a conhecer se esquecerem aquilo pelo que os seus Pais, Avós e Bisavós lutaram. Cientes de que está nas suas mãos garantir que essa nossa História recente nunca se volte a repetir.

25 de Abril, sempre.

Guarda, 16 de Abril de 2021

Paulisa d’Assunção (Deputada na Assembleia Municipal da Guarda, eleita pelo PS)

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