Este ano e o próximo de “novo normal”

Um destes dias, pelas 8h30 da manhã, fiz uma caminhada de cerca de 30 minutos por uma das zonas tradicionalmente mais movimentadas de Lisboa. Estava sem bateria no telemóvel, por isso não podia entreter-me a ler alguma coisa ou a ouvir um qualquer podcast. Tinha, então e necessariamente, de dedicar toda a minha capacidade auditiva e visual ao mundo real que me rodeava. E, ao fazê-lo, apercebi-me que algo não fazia muito sentido.

Há uns meses estaria em plena hora de ponta numa das artérias mais movimentadas – de carros e pessoas – da maior cidade do nosso país. Mas, naquela segunda-feira, a circulação automóvel era residual e praticamente não se via vivalma. Desta constatação saltei rapidamente para a ideia de que faz por estes dias um ano de que, em Portugal, esta profunda transformação começou.

Em retrospetiva, começámos esta travessia ainda sem fim à vista assustados (muito, sobretudo com os relatos de Itália), mas unidos no desígnio comum de vencer o vírus e solidários com os profissionais de saúde. Nesta fase, ainda ia ficar tudo bem.

Com o evoluir da situação e o aparente controlo da mesma no nosso país, embandeirámos em arco, cheios de orgulho pelo sucesso português. E comemorava-se a fase final da Liga dos Campeões, um prémio muito merecido…

Vivemos depois um Verão que, não sendo de todo semelhante aos anteriores, foi mais tranquilo do ponto de vista pandémico.

Entretanto o tempo foi passando e chegámos ao Natal enlevados pela chegada das vacinas. Não obstante, esse êxtase durou pouco dada a situação caótica e gravíssima que vivemos nas semanas seguintes e que motivou a chegada de equipas médicas estrangeiras para nos ajudar a aguentar o barco e nos obrigou a um novo confinamento pesado.

Ora, é lícito dizer que, após este enorme caleidoscópio de emoções partilhadas nacionalmente num só ano atingimos, de certo modo e por esta altura, a maturidade. Após euforias intensas e desânimos profundos, estamos mais resilientes, menos dados a estados de alma e conscientes que este caminho ainda será longo e que provavelmente muita coisa da nossa vida anterior demorará a voltar (se é que volta). Mas estamos, sobretudo, a adaptar-nos.

No entanto, a adaptação é muito desigual e afeta as pessoas de forma muito diferente. E, enquanto caminhamos para a imunidade de grupo, muitas outras questões vão emergindo.

Porque, apesar de uma avenida pouco movimentada em Lisboa às 8h30 da manhã poder ser agradável à primeira vista e até poder indicar novos hábitos de trabalho, novas rotinas de deslocação ou uma nova vida mais comunitária e vivida no próprio bairro, esconde também milhões de estudantes sem aulas presenciais e sem contacto social há longos meses numa altura chave do seu desenvolvimento, milhares de pequenos proprietários que têm os seus negócios muito diminuídos ou centenas de casas de espetáculo sem público.

Ainda que atualmente necessário, que daqui a um ano estejamos a saudar o apoio dado a estes setores e a recuperação das respetivas atividades. Acreditam? Faltam 365 dias para vermos…

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