Sobre rodas carris

2021 foi definido, pela Comissão Europeia, como o Ano Europeu do Transporte Ferroviário.

Com o assinalar desta iniciativa, pretende-se, entre outros objetivos, ter um impacto ambiental positivo (ao alcançar os objetivos do Green Deal Europeu) e promover formas atrativas e sustentáveis de ligar pessoas e atividades económicas.1

Paradoxalmente, um artigo do jornal Público desta segunda-feira2 anunciava – com destaque de primeira página na versão impressa – que “Portugal tem hoje os mesmos quilómetros de caminhos-de-ferro que em 1893”. Passaram apenas 128 anos.

Segundo o mesmo artigo, tem havido uma diminuição de quilómetros de caminhos de ferro desde o 25 de abril, após o qual foram apresentados vários planos inconsequentes para a ferrovia. Ora, neste mesmo dia – 19 de abril – decorreu a apresentação do lançamento do Plano Ferroviário Nacional – que se pretende que esteja concluído no primeiro trimestre de 2022.

Este plano pretende, desde já, servir com caminhos de ferro todas as capitais de distrito, sendo que faltam as cidades de Bragança, Vila Real e Viseu. Curiosamente – ou não – todos municípios do interior do país.

Ora, resumindo os pontos elencados até ao momento, parece que estamos, não fosse esta uma crónica sobre caminhos de ferro, a fazer escala numa estação após um determinado percurso já feito e a partir da qual podemos seguir um caminho entre vários.

Nas últimas décadas e até recentemente, a ferrovia aparenta ter sido preterida em função do investimento rodoviário, contribuindo estas decisões também para promover um meio de transporte mais individualista e menos integrado na vida das cidades. Isso parece estar a mudar.

Concomitantemente, a maior consciencialização relativamente à emergência climática – ressalvo nesta parte que o Secretário Geral da ONU, António Guterres, assinou no passado domingo, no semanário Expresso, um artigo3 cristalino relativamente a este flagelo e às suas consequências – e o impulso à mudança de comportamentos têm trazido os comboios para a ribalta, como meio de transporte de mercadorias e passageiros muito mais ecológico e sustentável que o transporte aéreo ou rodoviário4.

Como tal, a atual conjugação de fatores – vontade política portuguesa e europeia, consciência social e benefício ecológico – pode ser o mote para transformar a mobilidade do nosso país e os hábitos de deslocação dos portugueses.

Finalmente, e já fruto desta mentalidade mais vocacionada para a ferrovia, reabrirá no dia 2 de maio a ligação entre as linhas da Beira Alta e da Beira Baixa (troço Covilhã-Guarda). É o culminar de um processo que se iniciou com o lançamento desta iniciativa no fim de 2016, depois de esta ligação ter sido encerrada em 2009. Para além de originar fantásticas fotografias com a passagem de locomotivas e carruagens em vários troços do percurso e que se encontram pela Internet, como nesta conta do Twitter (https://twitter.com/linhabeirabaixa), é sobretudo uma mais valia para a mobilidade de todos os cidadãos, tanto para os de cá, como para os que cá pretendam vir.

1 https://op.europa.eu/s/oX9K, consultado a 19 de abril de 2021

2 https://www.publico.pt/2021/04/19/economia/noticia/portugal-hoje-quilometros-caminhosdeferro-1893-1959022, consultado a 19 de abril de 2021

3 https://expresso.pt/opiniao/2021-04-18-E-hora-de-agir-pelo-clima-pelas-pessoas-e-pelo-planeta-474c40cd consultado a 19 de abril de 2021

4 https://europa.eu/year-of-rail/why-rail_en consultado a 19 de abril de 2021

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