Voluntariamente acorrentados?

Algures no fim do ano passado, senti que estava a passar demasiado tempo ao telemóvel. Sobretudo à volta de apps de redes sociais, com uma utilização muitas vezes automática, desnecessária e inconsequente. Numa resolução de ano novo antecipada, eliminei aplicações que considerei não essenciais, desativei temporariamente algumas mais fúteis e passei ainda a utilizar outras apenas no computador, no início e fim de momentos de estudos. Para compensar algum receio de perda de informação, instalei ainda duas apps de jornais portugueses de âmbito nacional.

Ora, e aproximadamente dois meses depois, a verdade é que não sinto assim tanta falta do online de que abdiquei e continuo a estar a par das coisas do mundo, possivelmente com mais qualidade e rigor do que consumindo avulsamente notícias através de publicações e partilhas das redes sociais.

No entanto, este sentimento pessoal isolado encerra um fenómeno global com o qual virtualmente toda a gente com um “telemóvel inteligente” já se deparou. A teia urdida pelos smartphones e que vai enrolando dissimuladamente os indivíduos através das redes sociais é evidente, tanto que existem inúmeras apps cujo objetivo é ajudar a monitorizar e combater a quantidade de tempo que passamos… noutras apps.

Dados de 2019 da empresa RescueTime1 (que oferece ferramentas para que as pessoas voltem a ter controlo do seu tempo e combatam a falta de produtividade), após análise de 185 milhões de horas de trabalho, mostraram que 21% do tempo laboral é passado a ver notícias, a consumir entretenimento ou a navegar nas redes sociais. E que confirmamos o e-mail ou mensagens instantâneas a cada 6 minutos. Impressionante, não?

Que estas redes sociais têm uma utilidade inegável e nos aproximam imenso creio que é evidente. Que têm aspetos (muito) negativos, também. No entanto, de entre toda esta amálgama de coisas boas e más, gostaria de destacar um aspecto particular. Um indivíduo adere a uma rede social por acreditar que esta estará ao seu serviço. Espera que facilite o seu dia-a-dia, o contacto com amigos ou a difusão de ideias ou projetos. Contudo, pode acontecer que, ao de leve, progressiva e cumulativamente, sem se dar por isso, sejam os indivíduos a estar ao serviço do código e do algoritmo, voluntariamente acorrentados ao ecrã em repetidas e frenéticas atualizações de determinada(s) app(s).

Para concluir, numa TEDtalk1 subordinada a este tema e intitulada “The Smartphone Hostage: The Truth behind Our Technology Addictions” (que pode ser traduzida como “Refém do telemóvel: a verdade por detrás das nossas adições tecnológicas”), uma professora universitária norte-americana, Robin Grebing, lançou um desafio curioso à audiência – que observassem, nas pessoas da audiência em seu redor, quem mexia no seu telemóvel nos minutos seguintes. No fim da sua exposição, pediu a quem tivesse visto “vizinhos” a mexer no telemóvel que levantasse a mão – praticamente ninguém a levantou. A oradora termina então a talk concluindo que a audiência não tinha mexido no telemóvel porque as pessoas sabiam que estavam a ser observadas, monitorizadas. Mas nas redes sociais, não o somos também? E por muito mais gente?

1 https://blog.rescuetime.com/work-life-balance-study-2019/

2https://www.ted.com/talks/robin_grebing_the_smartphone_hostage_the_truth_behind_our_technology_addictions

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