823 anos de Guarda

Comemorámos no passado domingo mais um aniversário da Guarda. 823 anos de uma longa história que se iniciou com a outorga do Foral pelo Rei D. Sancho I em 1199. Abordei algumas particularidades deste documento régio num artigo do ano passado, por ocasião desta mesma efeméride, que os leitores da edição online podem consultar aqui. Daí, recupero que um dos principais objetivos da outorga deste Foral era o povoamento da região próxima da fronteira.

Regressando ao presente, a newsletter da Fundação Francisco Manuel dos Santos de dia 28 de novembro tinha uma bem conseguida coincidência. No topo, divulgava um novo livro intitulado “Paisagem Portuguesa” com a questão “Será Portugal só paisagem?”. Logo a seguir, remetia para o Portal da Pordata relativo os Censos 2021. A questão, apesar de referente a um livro, poderia facilmente utilizar-se para destacar os resultados demográficos da última década na região.

A informação referente ao município da Guarda é clara: na última década perdemos população (menos 2424 pessoas) e temos mais idosos (mais 1261 pessoas com 65 ou mais anos). Portanto, na prática, a perda de população ativa é ainda mais significativa, o que se traduzirá em menos atividade económica, menos dinamismo social e uma perspetiva negra da demografia a médio/longo prazo.1

Em quase nove séculos muito mudou e o que outrora foi erigido para vigilância e defesa quer hoje ser plataforma de ligação a Espanha e a toda a Europa. Todavia, há paralelismos inevitáveis. Tal como há 823 anos, precisamos de repovoar este Interior que caminha lenta mas inexoravelmente para o esvaziamento, pontilhado aqui e ali por bonitas vistas e empreendimentos – a tal paisagem – mas para usufruto pontual dos deslocados e demais turistas. Isto só se consegue, e tem sido dito por vários intervenientes até à exaustão, com medidas fortes e realmente diferenciadoras do Estado Central.

Um dos principais motores para combater e inverter esta tendência está na economia em sentido lato, o que, na prática, se traduz em atividade económica atrativa que ofereça emprego adequado às qualificações de cada um e remunerado de forma justa.

Portanto, foi importante que o Executivo tenha dedicado este dia da Cidade à Economia, com várias iniciativas simbólicas representativas de investimento económico e inovação tecnológica. Do Estado Central, foi também importante o sinal dado com a anunciada presença do Ministro da Economia e do Mar, ainda que depois tenha estado presente apenas um seu Secretário de Estado – Dr. João Neves, com a pasta da Economia.

Infelizmente, o discurso proferido por este último foi vazio em termos de conteúdo e concretizações para o concelho. Mais, não houve qualquer menção a verdadeiros Forais Novos para a Guarda, sobretudo a situação do Porto Seco ou o desfecho para o Hotel Turismo – este último um silêncio ruidoso após as informações dadas nos últimos dias pelo Partido Socialista sobre o assunto.

Em suma, e face a estes dados, o futuro não se afigura auspicioso. Mas há esperança enquanto tivermos um caminho para construir. Esperemos é que não demore mais tempo do que a Linha da Beira Alta, cuja modernização em 2022 levará mais tempo que a sua construção no século XIX2.

1 https://www.pordata.pt/censos/resultados/emdestaque-guarda-532

2 https://www.publico.pt/2022/11/14/economia/noticia/modernizacao-linha-beira-alta-demora-construcao-sec-xix-2027677

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