A Era da Cultura Pandémica

“A espantosa realidade das coisas”, como dizia o sublime poema de Fernando Pessoa, é uma frase que se adequa à realidade que a pandemia nos colocou a todos desde março. Essa “espantosa realidade” foi de tal forma pujante e avassaladora que primeiro estranhámos e, depois, entranhámos (para voltar a Pessoa). E entranhámos visceralmente o “novo normal” que nos impôs um novo paradigma de vida do qual sonhávamos apenas existir nas mais mirabolantes efabulações da literatura de ficção científica. No plano do impacto da covid-19 na cultura, o primeiro efeito foi o de impávida estupefação e surpresa total: isto é, cogitava-se como foi possível um microrganismo invisível fazer paralisar todo um planeta? Depois, um segundo momento adveio da pura interiorização mais serena por parte dos agentes artísticos de todos os quadrantes, que se resumiu à resignada aceitação da hecatombe que se abatia sobre eles. Por fim, um terceiro momento, não menos angustiante, coincidente com a urgente necessidade do setor procurar soluções para o aparente problema insolúvel, na senda da solicitação de apoio imediato e compreensão política. Seja como for, ninguém estava preparado para esta inesperada e brutal onda de choque.

E foi sobretudo neste terceiro momento pandémico ao longo de todo o ano de 2020, tão cirúrgico quanto nefasto, tão impactante quanto insidioso, que o mundo compreendeu a verdadeira dimensão da tragédia. Tratou-se de sentir no âmago, de perceber intrinsecamente, que a arte não pode ser relegada para segundo ou terceiro plano na vida e na sociedade.Qualquer ameaça à integridade da vida artística regular põe em causa as bases da democracia e do desenvolvimento de uma sociedade. Perante a suspensão súbita de toda uma atividade profissional de um dia para o outro, houve, por isso, necessidade de unir e mobilizar o tecido cultural como se de um exército napoleónico se tratasse com o ímpeto de invadir países inimigos. Houve urgência em envolver ativamente sindicados e múltiplos agentes numa estratégia concertada de defesa dos interesses e valores comuns. “Unidos Pelo Presente e Futuro da Cultura em Portugal” foi a hashtag mais utilizada, num claro grito de revolta que incendiou redes sociais, lançou a discussão global a plenos pulmões, motivou petições e, pasme-se, até lançou debates sobre cultura na televisão! Teatros, cinemas e salas de espetáculos fechados durante meses, trabalhadores em sufoco pela sobrevivência, ausência de respostas a tempo por parte da tutela.

Todas estras contrariedades altamente prejudiciais para o tecido cultural nacional, teatros e criadores, exigiram assumir uma veemente disciplina mental, uma estratégia de mediação com a comunicação social e públicos, um rigor no pensamento crítico, a discussão entre pares e ações e manifestações públicas. União acima de todas as possíveis e aparentes divergências. Como no romance de Jane Austen, era necessário que imperasse sensibilidade e bom senso por parte da ação política do Ministério da Cultura. Durante longos e penosos meses, o caos e a desorientação estavam instalados, a pandemia varria qualquer esperança da retoma do setor a curto e médio prazo. Um sistema cultural já por si fragilizado e precário que não aguentou as ondas sísmicas provocadas pela paragem abrupta. Diretrizes políticas claras e de recomendações de saúde pública para espaços culturais que tardavam em chegar. Para abalar ainda mais o panorama taciturno, o Eurostat dava por esses dias conturbados uma notícia nada animadora: “Os portugueses são dos europeus que menos gastam em lazer e cultura”. Nada que não soubéssemos, claro. Logo, a crise pandémica vivida só veio agravar esta constatação. Resposta dos mais otimistas: impõe-se serenidade, determinação e confiança. Mas os tempos inquietantes continuaram a confundir as prioridades: de repente, pareceu que a salvação da cultura, pelo menos transitoriamente, passaria pela abertura de uma profética caixa de pandora com o fenómeno da divulgação massiva dos conteúdos culturais em plataformas digitais via streaming. Quase todos os teatros e estruturas culturais recorreram a esta estratégia para colmatar a ausência de experiência da fruição estética presencial, física e tridimensional. Depressa veio ao de cima a fragilidade deste recurso abusivamente utilizado e a sua tremenda banalização nas redes sociais demonstrou que o online nunca seria um novo paradigma de fruição artística nem beneficiaria os criadores. Toda esta intrincada problemática exigiu uma ponderada reflexão por todos os agentes da cultura nacional. Uma visão, um sentido de missão enraizado nos grandes valores da Humanidade que a cultura representa. Por isso da parte dos agentes culturais combateu-se a inércia com uma forte motivação e capacidade interventiva non sentido de ultrapassar as dificuldades e entraves. E a luz ao fundo do túnel despontou no meio da penumbra: os teatros começaram finalmente a desconfinar aos poucos, abrindo as suas portas (ou espaços exteriores) para atividade cultural regular cumprindo as inerentes limitações e regras de segurança sanitária. Os públicos foram aparecendo, como que sedentos de fruição artística ao vivo, assim como a comunidade artística manifestou estar sedenta de se apresentar em cima de um palco físico, com público à frente que respira e não num palco frio, distante e virtual. Uma nova realidade, por enquanto ainda adaptada às contingências, pareceu aflorar e vir ao de cima, possibilitando um novo fôlego de esperança.

Afinal de contas, apesar de todas as contrariedades que o cenário negro do coronavírus nos impôs, não era o fim do mundo como imaginávamos em abril ou maio. A vida tinha de continuar e interiorizar a palavra “adaptação” era essencial para engendrar novas formas de levar as artes às pessoas e de envolver os artistas no processo transformador que referia Sophia. A cultura sobreviveu a calamidades e devastações insanas ao longo da história da Humanidade (guerras, pestes, desastres naturais…) e vai continuar a estar presente agora e no futuro. Mesmo que de forma (temporária ou definitivamente) diferente. E é essa a esperança para 2021: que a cultura, aos poucos, volte a ocupar o seu lugar central na dinâmica da sociedade, que os seus artistas e técnicos voltem a trabalhar o mais possível para reabilitar e promover as artes do torpor instalado, com o inestimável apoio de múltiplos setores: teatros municipais, casas de cultura, instituições de apoio à cultura, empresas públicas e privadas (mecenato) e estruturas do Ministério da Cultura. Sem esquecer, claro está, o apoio e o regresso dos públicos.

Por Victor Afonso, músico e programador cultural

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