A morte é a curva da estrada

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Nas palavras de Pessoa inicio o pensamento – «A morte é a curva da estrada, / Morrer é só não ser visto».

Desde cedo, somos educados para a vida, para o processo de conceção, de fecundação, de evolução, de expulsão, de crescimento e de desenvolvimento de várias faculdades. Os estudos da vida estão cada vez mais avançados e navega-se no sentido de a prolongar com a melhor qualidade possível. O elixir da juventude eterna é o novo desafio. Pretende-se conhecer, dominar e, sobretudo, desviar o desconhecido e o inevitável. A morte, palavra dura, fria e assustadora. Ninguém nos sabe explicar cientificamente a morte. Corpo abandonado pela alma ou alma morta com o corpo? O que se sente quando se morre? O que morre primeiro na morte, os órgãos ou a consciência? Teremos perceção da morte se formos nós o corpo morto? Se a alma é indissociável do corpo para onde é que esta vai? Existe um mundo de almas vividas? Viverão novamente noutro corpo? Mas, se a alma morre com o corpo, qual a sua expressão de finitude? Onde se encerra, será num suspiro final feito grito que fecha a nossa luz, apagando-nos?

Depois da curva, deixamos de ser vistos e ninguém sabe sobre o que não se deixa ver. Tememos a morte porque, antes de tudo, a desconhecemos. Viver a incerteza é cruel para a racionalidade. Não compreender aquilo que nos acaba perturba-nos e confronta-nos com os limites da nossa existência e impotência.

Quando alguém morre, sobretudo quando alguém jovem morre, numa morte inesperada e contra-natura, sentimos que somos tão frágeis quanto um cálice de vidro. Qualquer distração pode estilhaçar a nossa vida e terminá-la abruptamente. Somos um momento indifinido que pode acabar agora. Resta-nos a luz. A luz que fica, como a que vemos das estrelas que já morreram. Resta-nos ser, ser tanto quanto consigamos, ser sem medos, transbordar, usar vida para transformar, criar e dar. É tudo o que fica, o que nos sobrevive. «Se escuto, eu te ouço a passada / Existir como eu existo».

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