Adam Smith no nosso tempo

Poucos economistas conhecem bem Adam Smith e a sua obra principal, onde existe uma crítica apurada à atuação das grandes companhias, criadas para o comércio externo, dizendo até: “Sem privilégio exclusivo, elas comumente administram mal o setor. Com privilégio exclusivo, administram-no mal e confinam-no.” Mas, só Giovanni Arrighi nos fala da sua atualização necessária em Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI, Boitempo, São Paulo, 2008, p. 69, numa tradução deste trabalho, que tinha publicado em 2007, logo e quando estava a arrancar a crise financeira de 2008.

Não admira que Josep Borrell, alto representante da União Europeia para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, apele para uma estratégia robusta para enfrentar o poder da China, sem ter de alinhar no dos EUA (Jornal de Notícias, 26 de Maio de 2020, p. 29). Mas, não acredito que todos queiram alinhar nesta política, mas já está aí o Século Asiático, que concretiza o modo de produção asiático neste nosso tempo.

E sem emenda as grandes empresas tentam fugir às suas responsabilidades e por isso a pandemia na Zona Industrial da Azambuja não para, causando crescentes preocupações às populações e aos trabalhadores (p. 26), sendo as grandes empresas aí sedeadas usufrutuárias do laxismo do Estado, que não as controla, nem parece querer reforçar a aplicação das regras de sanidade que os portugueses em geral cumprem, mostrando que estas grandes empresas têm ineficiências que Adam Smith não previu.

Estamos assim todos convocados a ler sem dogmatismos as obras clássicas da teoria económica, que nefastamente receberam contributos espúrios, que nada têm a ver com as suas necessidades de desenvolvimento científico para se adequarem às necessidades de gestão da economia nos seus diversos patamares. Bem pelo contrário alguns enxertos que lhe têm sido feitos têm muita a ver com as necessidades de certos magnates e outros atores secundários. Estes são quase sempre políticos bem-falantes, que só servem para justificar apoios a empresas mal geridas e, com isso, só prejudicam o normal desenvolvimento das sociedades. É o que fazem com recurso a sofismas com que enganam quem os ouve distraidamente.

Servem para justificar corrupções e apoios a empresas mal geridas, conduzindo a prazo mais ou menos longo a situações, em que o salvamento de uma grande empresa implica sacrifícios sociais, ou seja austeridade e com ela à inviabilização de empresas, que vendiam bens que com ela deixam de ter quem compre os produtos que vendem.

Há por isso medidas de política que “economistas” justificam de modo pouco credível, abusando alguns de um “magister dixit”, que é necessário quanto antes desmascarar para que a ciência económica deixe de ser uma justificação para decisões adversas ao bem comum, ou seja de corrupção em que os mais débeis perdem o pão de cada dia. Há aqui que pensar concretamente em como a corrupção se instala nas sociedades humanas, sendo justificada por muitos comentadores de economia que obedecem aos seus senhores, sendo secundados por muitos que apenas seguem modas sem questionar se têm fundamentos científicos e morais. Dão deste modo origem a processos de subdesenvolvimento e até de desertificação pois destroem empresas e atividades, que faziam viver regiões que a certo momento ficam cheias de terras abandonadas e de casas que se degradam por não terem quem as habite.

Enquanto isso acontece os donos de grandes empresas, que faliram fraudulentamente, continuam a fazer uma vida normal, esperando que a morte aconteça antes que qualquer castigo lhes seja aplicado.

Acontece por aos tribunais faltarem os recursos e as leis que podiam agilizar os processos judiciais e, permitir que aos humildes não falte o pão de cada dia…

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