Águas revoltas

A água foi sempre um recurso importante para Manteigas!

Brotando do cimo da Serra, numa dádiva divina, com boa qualidade e em abundante quantidade, a água fazia girar rodas gigantescas que movia engenhos, alimentava caldeiras e tinturarias, possibilitando a criação e desenvolvimento de uma indústria têxtil toda ela concentrada à beira do rio Zêzere, e hoje reduzida na vila.

A força gravítica trazia a água até aos chafarizes, onde o povo abastecia cântaros, entre namoros de mais novos e coscuvilhices de mais velhas, proporcionando momentos de paragem em vidas duras e momentos de romance aconchegados ao peso das bilhas de barro.

Apenas nos finais dos anos 30, do século passado, a modernização da água a domicílio chegaria à vila, ainda que, agastados pela possibilidade de pagar pelo bem precioso que lhe chegava de borla, os manteiguenses se revoltassem contra a novidade que era então trazer água canalizada a cada casa.

Entre nós, na vila, diz-se que muita da água bebida em Lisboa por aqui passa, sendo sobejos do que não gastamos!

Não é assim de admirar que a nossa água tenha recebido o Selo de Qualidade exemplar! Até à vila, a água das nascentes quase não encontra outra fonte de poluição que as deixadas pelos rebanhos ainda existentes ou a presença dos humanos.

Também não é de admirar que a nossa água seja a que chega à casa de cada um com o preço mais baixo do país: a gravidade continua a ser a principal aliada no transporte do líquido tornando os custos menores tanto na exploração em alta, como em baixa.

Hoje, como há quase um século atrás, falar no aumento do preço da água traz memórias desse tempo em que os locais se revoltaram por pagarem um bem que corria livremente nas bicas, fontes e chafarizes!

Uma atitude compreensível, apesar de nos dizerem que por solidariedade deveríamos aproximar taxas com outros municípios!

É que, nem sempre por aqui se sente essa mesma solidariedade noutros setores da vida, como se tem visto no tratamento dado à estrada nacional 338 que, encerrada há um mês, vai agora ser analisada pelo LNEC, para depois se constituírem grupos de trabalho… não havendo previsões de quanto poderá demorar abrir a via!

Quando o turismo nacional quer fazer uma aposta na marca Serra da Estrela, uma das sua vias mais emblemáticas continuará encerrada, privando o concelho de um acesso tão vital. O único funcional, aquando do incêndio de agosto, para quem vinha da A23!

P.S. – Isolino Vaz (1922/2022), artista plástico e professor, não é de todo desconhecido em Manteigas por serem de sua autoria o vitral existente na Câmara Municipal e as ilustrações do livro “Contos Serranos” do médico e escritor João Isabel.

No centenário do seu nascimento, que se comemora até abril de 2023, ainda se irá a tempo de lembrar a Comissão organizadora da efeméride da importância que teria uma exposição do artista na terra à qual ficou ligado, não só pela sua obra, mas pelos laços de afeto.

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