Arquitecto António Carvalho indignado com as referências feitas ao seu trabalho na memória descritiva do novo projecto para o “Quintal Medroso”

António Carvalho, autor do projecto do “Jardim Teles de Vasconcelos” (mais conhecido por “Quintal Medroso”), implementado em 1994, está indignado com as críticas que constam da memória descritiva do projecto delineado por Jorge Palma para aquele espaço, com vista a albergar a sede da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior.
Instado a comentar o que consta do documento, António Carvalho considera «deplorável» a memória descritiva, que só ficou a conhecer depois de contactado pelo TB. «Conheço apenas a deplorável Memória Descritiva, onde o seu autor se refere à minha obra em termos absolutamente lamentáveis, resultado por certo da sua profunda ignorância», escreve o arquitecto em carta enviada a este semanário e que se publica na íntegra, a pedido do autor.

A memória descritiva do novo projecto para o Jardim Teles de Vasconcelos, que vai albergar a sede da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior (CVRBI), não poupa duras críticas à intervenção feita naquele espaço em 1994, que teve a assinatura do arquitecto António Carvalho. O autor do novo projecto, Jorge Palma, considera que a «concepção pecou pela ligeireza na variedade de intervenções e materiais utilizados» e que «não houve um conceito claro de enaltecer ou colocar a muralha medieval no centro da intervenção». E chega mesmo a dizer que «a magnificência e escala do troço remanescente da muralha é remetido para a fronteira do audacioso programa recreativo, conflituando com a abusiva introdução de uma berrante tijoleira que se expande por todos os cantos da área de uma forma contaminante».
«No centro do local foi construído um edifício com o nome de “Casa de chá”, com todos os “tiques” de linguagem para ser a peça principal, ofuscando e tentando subalternizar o seu entorno. Para além do impacto da sua presença, nos excessos de linguagem e escolha dos materiais, conflituando, sem dialogar, na zona de protecção ao Património Nacional, a sua implantação central impede um percurso de aproximação escalonado, numa leitura a diferentes distâncias da muralha», refere ainda o arquitecto.
Ainda antes de terminar a “memória descritiva”, o autor escreve que «a tentativa de manter o jardim fechado, escuro, com pouca visibilidade, cheio de recantos e surpresas, incluindo o encerramento das ligações à Torre de Menagem, são critérios que ditaram o seu abandono contrariando as actuais regras da reabilitação urbana».
Instado a comentar o que consta do documento, António Carvalho considera «deplorável» a memória descritiva, que só ficou a conhecer depois de contactado pelo TB, acrescentando que está nesta altura «demasiado absorvido em Itália» com as suas «novas tarefas de “Visiting Professor at Politecnico di Milano” para despender tempo precioso com atrevimentos ignorantes». «Deixarei tal tarefa para as instâncias legais e verificação das regras deontológicas aplicáveis. Mas quero acreditar que o bom senso por parte dos responsáveis prevalecerá», adianta na carta enviada a este semanário e que se publica na íntegra, a pedido do autor.

Obras no “Quintal Medroso” ascendem os 400 mil euros
As obras que vão ser feitas no Jardim Teles de Vasconcelos, mais conhecido por “Quintal Medroso”, visam albergar a sede da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior (CVRBI. Para isso, vão ser feitas diversas alterações do espaço, entre as quais, a demolição do edifício e o restante mobiliário urbano que ali existe desde que foi implementado o projecto do arquitecto António Carvalho, em 1994.
As obras, que ascendem os 400 mil euros, sendo financiadas pelo FEDER no âmbito do Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano (PEDU), englobam a construção de um edifício.
O presidente da Câmara da Guarda, Álvaro Amaro, explicou recentemente que a autarquia vai afectar o financiamento que está assegurado no âmbito do FEDER (85%) para fazer obras no Jardim Teles de Vasconcelos, bem como suportar os 15% da quota nacional. Como contrapartida, a CVRBI terá de «pagar o equivalente a 15% [cerca de 50 mil euros] em obras prévias da sua responsabilidade, no âmbito do projecto» entregue na Câmara, que tem a assinatura do arquitecto Jorge Palma.
Refere o autor que «reabilitar os Jardins anexos ao solar Teles de Vasconcelos passa por demolir todas as recentes intervenções torná-lo versátil, disponível para todo o tipo de eventos, abrir o espaço, dando-lhe escala, fluidez nos acessos e permitir que seja visível do exterior».
O edifício a construir, «implanta-se a norte, na área inferior do terreno com uma fachada interrompida apenas pela abertura de acesso ao nível inferior que dita a sobriedade da intervenção procurando dialogar com o remate final da muralha como duas partes do mesmo todo».
«A sul, a toda a extensão, concebeu-se uma estrutura vertical de lâminas quebra sol em madeira de carvalho, que para além de contribuir para a privacidade dos funcionários nos momentos em que o espaço recebe público, pretende-se integrar o edifício com uma linguagem e um material comum para as honras de comunicação com a rainha que ocupa este espaço há mais de 700 anos», pode ler-se no documento.
«Desta forma, desenvolveu-se, numa primeira aproximação, a imagem de um corpo sóbrio de representação artesanal, quase medieval, em que os barrotes verticais de madeira que acompanham a caixilharia, consolidados no conjunto dos muros de aparelho rústico de granito, formalizam uma linguagem alusiva à tanoaria tradicional, muito a propósito do conceito e temática do parque, sem entrar em representações abusivas na temática do vinho», justifica o arquitecto.
Jorge Palma diz ainda que gostaria de desenvolver a “Unidade de Interpretação Vinícola Regional”, que, justifica, poderia ser a base para «a sustentabilidade financeira de todo o parque e a génese para o futuro percurso temático tal como “A Aldeia do vinho e do fumeiro”, um Restaurante Degustação/Enoteca, na temática de “Museu do Vinho da Beira Interior”».
«Numa primeira fase, limitados pelos recursos disponíveis, relativamente à sua dimensão propõe-se apenas um espaço de suporte para apresentação dos vinhos que prevendo uma expansão futura, poderá concentrar várias valências, essenciais complementares à Sede da CVRBI», acrescenta.

Gustavo Brás
gbras.terrasdabeira@gmpress.pt

Comentário do arquitecto António Carvalho
O meu projecto de “Reabilitação do Jardim Teles de Vasconcelos”, inaugurado em 1994, foi a proposta vencedora num concurso público promovido pela Câmara Municipal da Guarda em 1992.
A obra foi inaugurada no Verão de 1994, tendo sido visitada pouco antes pelo Arquitecto Álvaro Siza Vieira, que lhe teceu públicos elogios.
A obra mereceu depois a nível nacional, em 1995, uma Menção Honrosa no PRÉMIO DE ARQUITECTURA DO MINISTÉRIO DO PLANEA-MENTO E ADMINIS-TRAÇÃO DO TERRITÓ-RIO.
A obra mereceu igual-mente destaque no “MAPA DE ARQUITECTURA DA GUARDA”, editado pela Argumentum em 2003, sendo um dos cinco “Espaços Urbanos” destacados de toda a cidade, naquela publicação nacional.
Desconheço em absoluto o projecto que se pretende agora ali executar.
Desconheço se foi resultado de concurso, desconheço o autor, desconheço o programa, desconheço os desenhos.
Conheço apenas a deplorável Memória Descritiva, onde o seu autor se refere à minha obra em termos absolutamente lamentáveis, resultado por certo da sua profunda ignorância.
Estou neste momento demasiado absorvido em Itália com as minhas novas tarefas de “Visiting Professor at Politecnico di Milano” (15ª classificada no ranking mundial de Escolas de Arquitectura), para despender tempo precioso com atrevimentos ignorantes.
Deixarei tal tarefa para as instâncias legais e verificação das regras deontológicas aplicáveis.
Mas quero acreditar que o bom senso por parte dos responsáveis prevalecerá.
Lisboa/Milão, 17 de Outubro de 2016
António Carvalho, Arquitecto, P.hD in Architecture

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