Arquitecto António Carvalho lamenta abandono do Jardim dos Delírios

É autor de diversas obras na Guarda, como o Jardim dos Delírios, “Envolvente da Torre de Menagem” e “Jardim Teles de Vascon-celos” (mais conhecido por Quintal Medroso”). Recen-temente, esteve na Guarda, no Hotel Santos, que também foi projectado por si, para apresentar o seu primeiro livro intitulado “Architecture as Space for People”. A obra fornece informações sobre os projectos da sua autoria.
Em entrevista ao jornal “Terras da Beira”, António Carvalho lamenta o estado de abandono a que foi votado o Jardim dos Delírios e considera «um escândalo» o que foi feito à obra do “Quintal Medroso”, que, relembra, chegou a ser elogiada pelo arquitecto Álvaro Siza Vieira. Quanto ao projecto da envolvente da Torre de Menagem, diz que «o que lá está executado» não corresponde ao projecto que fez.

Era importante e necessário ter agora o livro “Architecture as Space for People”?
Não me compete, por uma questão de modéstia, avaliar, mas, para mim fazia sentido ser publicado este livro. Achava prematuro e até arrogante querer publicar logo as primeiras obras. Neste momento, achei que fazia sentido por razões da quantidade de obras já produzidas, da qualidade delas e da coerência entre elas.
Passados estes anos, é importante para um arquitecto reflectir sobre a vida própria que as obras levam depois de terminadas e ocupadas pelos utilizadores. E também é importante em termos académicos. Actualmente sou professor no Politécnico de Milão, que é a melhor escola de arquitectura de Itália e é a número 14 a nível mundial e eles têm uma série de regras apertadas e uma das exigências era uma monografia. Penso que o livro será útil para outras pessoas, profissionais e não profissionais.
Disse-me que fez uma reflexão sobre as obras que já tem. Se fosse hoje fazia alguma alteração a essas obras?
Sim, faria algumas alterações, mas não sei dizer em concreto.
Não se envergonha de nenhuma?
Não. Aliás, quando oiço algum colega dizer que tem vergonha ou que já não gosta desta ou daquela obra que fez, ou que se fosse hoje fazia de maneira diferente, isso faz-me muita confusão. Acho que a arquitectura deve ser exercida de um modo reflectido e não deve ser fruto de uma paixão, de uma coisa espontânea, fugaz. Se é moda, passa de moda e acredito que deixamos de gostar. Agora, quando não é feita como moda, quando é ponderada e quando é fruto das circunstâncias, da maneira de sentir do arquitecto naquele momento, do cliente que teve naquele momento, nos materiais e tecnologias que teve no momento, das circunstâncias culturais, também do momento, fica. E a arquitectura é isso. A arquitectura são edifícios e espaços que ficam.
Vergonha das obras? Não. Correcções? Sim, faria, porque até é importante revisitar as obras para perceber que há coisas que nos escaparam – somos humanos, também erramos – e é importante voltar aos espaços para perceber que uma coisa que nós imaginávamos que funcionasse lindamente pode não funcionar assim tão bem. Há outras que são uma surpresa agradável e então descobrimos que podemos voltar a usar. Há outras que confirmam e nos dão satisfação porque estávamos certos. Reflectir sobre aquilo que se faz é importante para um arquitecto.
Tem alguma obra da qual se orgulhe muito?
Tenho várias. A obra do Hotel Santos [na Guarda] é uma das que mais me orgulho ainda hoje. Desde as várias fases das obras aos donos da obra, também a receptividade que os turistas têm tido perante a obra, a importância que ela teve discretamente para a cidade, o papel que tem na cidade em termos de turismo e qualidade de serviço. Esta é, sem dúvida, uma delas.
Tanto que regressou a esta casa para apresentar o seu livro?
Exactamente, essa foi uma das fortes razões pelas quais pedi ao senhor Gonçalves se me dava o prazer de apresentar aqui o livro.
Uma das outras obras mais recentes que fiz foi uma escola [Secundária Frei Gonçalo de Azevedo] para o Parque Escolar, em Cascais. Foi uma experiência muito interessante, muito desafiadora, muito complexa, com muitos graus de dificuldade diferentes, mas que teve uma coisa fantástica, que foi o envolvimento com o director da escola, assim como o acompanhamento com os próprios alunos, professores e funcionários da escola.
Foi uma oportunidade importante em termos profissionais de uma obra de grande escala, mas, para mim, foi sobretudo uma oportunidade de envolver um enorme número complexo de utilizadores. E a verdade é que a obra está feita e está a funcionar lindamente. É uma escola onde os miúdos estão felizes. Essa foi uma obra que me motivou particularmente.
Depois, tenho várias obras em São João da Pesqueira. Abstraindo-me de ser o autor, tentando ser objectivo, acho que foram obras que resultaram muito bem. São obras públicas, com programa um bocadinho fora do habitual. Talvez aquela que mais sinto de um modo especial é o cemitério de São João da Pesqueira, que é uma obra de que me orgulho muitíssimo porque foi inicialmente quase receada pela novidade, pelos vários elementos serem mais modernos, as pessoas estranhavam. Quando ficou pronta foi acarinhada de uma forma absolutamnte emocionante por toda a população que, de imediato, passou a usar e a sentir como sua. E, agora mais recentemente, um edifício para pessoas com deficiência.
É um regresso momentâneo à Guarda. Sente alguma desilusão quando vê esta cidade?
Sinto algum desconforto, no sentido de que vejo aquilo que me fez sair em 98, quando mudei o atelier e passei a viver em Lisboa. Continuo a vir à Guarda por razões profissionais e familiares, mas o que aconteceu foi que, de 88 a 98, esses dez anos em que estive profissionalmente na Guarda, a minha carreira profissional correu bem. Em 98 eu já tinha bastante trabalho em Lisboa. Portanto, estava cá e ía a Lisboa e regressava. E apercebi-me já nessa altura que a cidade não tinha evoluído ao ritmo da minha carreira profissional. O IP5 já estava esburacado, o IP2 não havia maneira de ser acabado, portanto, a cidade já estava a ficar isolada. Felizmente, depois disso a A25 e a A23 foram feitas, melhorando a acessibilidade. Mas, na altura, foram questões que influenciaram muito a minha decisão de sair porque se ficasse teria restringido muito a minha actividade profissional. Agora já não venho com tanta frequência.
Cada vez que cá vem, vai ver as suas obras?
As que existem venho ver. Gosto de ver como é que evoluíram.
Para além desta, há outras obras que são notórias publicamente?
Para mim, sim, independentemente do abandono a que tenham sido votadas, porque isso já é da responsabilidade do dono da obra. Nenhuma obra se aguenta se não tiver manutenção.
Infelizmente, há aqui obras públicas que acho muito importantes, uma delas é o Jardim dos Delírios, que considero que é uma obra muito importante para a cidade e que não foi acarinhada, não foi tratada e as coisas degradam-se quando não têm manutenção. E aí são responsabi-lidades públicas, porque nós arquitectos temos a obrigação de fazer um bom projecto e de acompanhar a obra até ao final. Depois, é como um filho, autonomiza-se e vai à vida dele, mas um pai que é pai deve dar os seus conselhos e a sociedade em conjunto deve acarinhar os novos adultos para que possam ter uma vida normal e saudável. Não vou falar de obras privadas porque essas são de relevância privada. As obras são deles e eles cuidam delas.
Há mais algum projecto ou só foi o do Jardim dos Delírios?
A envolvente da Torre de Menagem. Foi um projecto inacabado. O que lá está executado não é o projecto que eu fiz.
E o “Quintal Medroso” (Jardim Teles de Vasconcelos)?
Essa obra é um escândalo. Uma obra que tive o prazer de fazer uma visita guiada para o Álvaro de Siza Vieira e que ele elogiou publicamente. É claro que, para mim, como jovem arquitecto, foi muito gratificante receber elogios de um mestre que tanto admiro. Mas, independentemente disso, era uma obra que no início induziu na cidade uma dinâmica fantástica. Estava toda a gente fascinada com aquele espaço, parecia a descoberta de uma jóia escondida. E depois, uma vez mais, foi votado ao abandono.
Já lhe pediram desculpa?
Nem justificações. É uma situação que ainda está por apurar.
A obra foi premiada?
Sim.
Agora alguém que queira ver a obra não a vê…
Exactamente.
Já lá passou?
Não, nem vou passar porque não sou masoquista e, portanto, não me interessa o que lá estão a fazer.
Este espaço [Hotel Santos] ficou concluído? Não faltou a parte da esplanada?
A esplanada era um projecto autónomo. Não fez parte do projecto inicial. Surgiu passados uns anos. Acho que sendo um projecto privado, se a Câmara assim o entendesse, seria concessionado ao Hotel Santos. Mas a Câmara não entendeu assim e resolveu manter aquele espaço abandonado. Penso que agora tem um projecto de acesso à Torre. Acho que podiam ser conciliadas as duas coisas. Faria mais sentido os privados terem o encargo da manutenção daquele espaço.

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