As Cartas da Vida

Nasci com cem cartas de aposta num mundo melhor. Na infância, troquei duas pelos tazos que ainda não tinha e apostei três em como o meu clube vencia o campeonato.

Já sem cinco delas, entrei na adolescência com a certeza de uma aposta certeira que me fizesse duplicar a posse e conquistar tudo o que estaria por vir.

Não esperava ser invadida por um mar de incerteza, onde fiz naufragar mais sete cartas – em mudança de área de estudos, de escolas, de cidade. Não queria errar o alvo e, para tal, considerei mais sensata a experimentação.

Ainda tinha noventa e uma cartas, número representativo do ano do meu nascimento, um ótimo pressagio.

Chegou a Poesia e soube, desde logo, que a minha vida tinha mudado para sempre. Troquei espadas por canetas, num investimento de doze cartas. Foi o princípio da minha dissonância para com o mundo, pois ninguém investe no aparentemente inútil. Acreditei na Palavra como quem acredita no Sagrado e, para mal da minha economia, toquei o Divino.

Foi o exato momento em que ofereci trinta das minhas cartas ao mar, num gesto de gratidão e dívida eterna. Restaram-me quarenta e nove cartas para uma vida quase inteira.

O mar leva e o mar trás e eis que me chega às mãos um tesouro – quente, belo, único e tão precioso. Com oito cartas, comprei uma chave para coração, de forma a guardar tamanha preciosidade.

Ali, dentro do coração, o tesouro nunca se perdeu e permaneceu intacto, ano após ano. Pensei ter descoberto o sentido do mundo e descobri, certamente, um mundo melhor. De tesouro protegido, investi, sem medos, vinte e três cartas para a construção de um palco de onde pudesse dissertar para o alto, bem alto.

Uma vez mais, foi um investimento no inconcreto, como se o mundo acreditasse na utilidade do inútil. Descobri que o pouco espaço que há no mundo é barbaramente ocupado pela caça do lucro e qualquer palco do conhecimento é rapidamente substituído pelo palpável.

Chateei-me com o ciclo capitalista e, em grito de protesto, rasguei quinze cartas. Sobram-me três e pondero deitar ao mar a chave que protege o Tesouro, porque a Poesia ensinou-me que só nos podemos encontrar se estivermos leves.

De peito aberto, resta-me o sangue que usarei para escrever aquele que será o Poema e, aí, poderei escrever nas minhas três últimas cartas: “O Poema Sou Eu.”

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