Carlos do Carmo morreu hoje aos 81 anos

O fadista Carlos do Carmo, que morreu hoje aos 81 anos, despediu-se dos palcos em Novembro de 2019, em Lisboa, tendo sido condecorado pelo Governo com a Medalha de Mérito Cultural, pelo seu “inestimável contributo” para a música portuguesa.

A medalha foi a última, entre várias distinções que recebeu, ao longo de um percurso artístico de 57 anos, como o Grammy Latino de Carreira, que distinguiu, pela primeira vez, um português, em 2014.

O Governo português justificou a condecoração como um “gesto simultâneo de agradecimento e de reconhecimento pelo inestimável trabalho de uma vida dedicada à divulgação do Fado e da música portuguesa, difundindo em Portugal e no estrangeiro a cultura e a língua portuguesas, ao longo de mais de cinquenta anos”.

A Enciclopédia da Música Portuguesa no Século XX aponta-o como “um dos maiores referenciais” no fado, embora inicialmente a sua preparação académica, na Suíça, o vocacionava para a hotelaria. Entre 1962 e 1979, geriu a casa de fados da família.

O fadista atribuiu o começo de carreira à participação na gravação do EP “Mário Simões e o seu Quinteto”, no qual cantou o fado “Loucura”, de Júlio de Sousa e Frederico de Brito.

“As transformações que Carlos do Carmo operou [no fado] foram influenciadas pelos seus gostos musicais que incluíram referências externas ao fado” como a Bossa Nova, do Brasil, e os estilos próprios de cantores como Frank Sinatra (1915-1998), Jacques Brel (1929-1978) e Elis Regina (1945-1982), segundo a enciclopédia da música portuguesa.

O mesmo texto refere que, desde a década de 1970, “acentuou as inovações musicais” mais notadas após o 25 de Abril de 1974, tornando-o “no representante máximo do chamado ‘fado novo'”, autor de trabalhos como o álbum “Um Homem na Cidade” (1977), que contou com colaborações de compositores como José Luís Tinoco, Martinho d’Assunção e António Victorino d’Almeida.

A enciclopédia afirma que uma das mudanças foi também na mensagem literária em que “a tónica passa da saudade para a liberdade, e da tristeza passiva para a enérgica vontade activa”.

Em 2019, quando da sua despedida dos palcos, em declarações à agência Lusa, o fadista dava conta de uma “carreira cheia” de aplausos e muitas salas nacionais e internacionais, e considerou que era “altura de acalmar”.

A despedida dos palcos foi no passado dia 09 de Novembro de 2019, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, cidade onde nasceu a 21 de dezembro de 1939.

Filho da fadista Lucília do Carmo (1919-1998) e do livreiro Alfredo Almeida, que morreu em 1962, nasceu no meio fadista. Os pais eram proprietários da casa O Faia, em Lisboa, onde começou a cantar, até iniciar a carreira artística em 1964.

Abandonar os palcos, depois de ter pisado salas como o Olympia, em Paris, a Ópera de Frankfurt, o ‘Canecão’, no Rio de Janeiro, ou o Royal Albert Hall, em Londres, foi uma “decisão difícil” de tomar, mas “pensada”, disse o intérprete de “Trem Desmantelado”.

Em entrevista à agência Lusa, Carlos do Carmo fez o balanço da sua carreira: “Corri sempre em pista própria e não em pista de competição, nunca competi, até porque cantar não é o mesmo que correr. Há sempre gostos. Uns gostam mais de A, outros, de B. Isso não quer dizer que A ou B cantem muito bem ou cantem mal, são os gostos das pessoas”.

“Fiz este meu caminho que não foi das pedras, mas que considero um caminho sempre saudável e que me levou sempre a ter uma perspectiva de ser solidário com os meus companheiros de profissão. Não me recordo de ter feito uma sacanice a um colega de profissão. E, para esta nova geração, estou de braços abertos”, sublinhou o fadista que interpretou êxitos como “Por Morrer uma Andorinha”, “Canoas do Tejo”, “Lisboa, Menina e Moça”.

Em 2019, recebeu o Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural, que o reconheceu como “um dos maiores intérpretes de um Fado que soube renovar”, detentor de “uma das mais exemplares carreiras do panorama artístico português”.

O júri do galardão, que contou com personalidades como o ex-presidente do Centro Nacional de Cultura Guilherme d’Oliveira Martins, realçou que, “desde cedo, a sua voz soube quebrar fronteiras, atravessar gerações, tornando o Fado uma manifestação artística de expressão universal”.

“Essa expressão universal foi determinante para a Candidatura do Fado a Património Imaterial da Humanidade, de que Carlos do Carmo foi um dos embaixadores”, acrescentou o júri.

Carlos do Carmo empenhou-se na promoção do fado e do seu legado histórico-cultural. Foi um dos fundadores da Associação Portuguesa dos Amigos do Fado, tendo sido uma das personalidades que mais apoiaram a criação do Museu do Fado, em Lisboa, que contou sempre com a sua especial atenção e dedicação.

O fadista desempenhou um “papel fundamental na divulgação dos maiores poetas portugueses” referiu o júri do Prémio Vasco Graça Moura-Cidadania Cultural.

Além de Vasco Graça Moura, de quem deu a conhecer um inédito, “Mariquinhas.com”, no derradeiro espetáculo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, Carlos do Carmo cantou Mário Moniz Pereira, José Carlos Ary dos Santos, Fernando Tordo, José Saramago, Frederico de Brito, João Linhares Barbosa, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice, Manuel Maria Barbosa du Bocage, Fernando Pinto do Amaral, José Luís Tinoco, José Manuel Mendes, entre outros.

No seu derradeiro álbum, “E Ainda?”, editado no passado mês de Novembro, também cantou Herberto Helder, Sophia de Mello Breyner Andresen, Hélia Correia, Júlio Pomar e Jorge Palma.

Num percurso de quase 57 anos, o seu repertório celebrizou canções como “Bairro Alto”, “Fado Penelope”, “Os Putos”, Um Homem na Cidade”, “Fado Campo Grande”, “Nasceu Assim, Cresceu Assim”, “O Cacilheiro, “O Amarelo da Carris”, “À Memória de Anarda”, “Pontas Soltas”, “Fado dos Cheirinhos”, “Fado Ultramar”, ou “Uma flor de Verde Pinho”, que venceu o Festival RTP da Canção, em 1976. A canção que apresentou em Haia classificou-se em 15.º lugar entre 18 participantes da Eurovisão.

Em 2014 além do Grammy Latino de Carreira, o intérprete de “Duas Lágrimas de Orvalho” recebeu também o Prémio Personalidade do Ano/Martha de la Cal, da Associação Imprensa Estrangeira em Portugal.

No ano seguinte, recebeu a mais elevada distinção da capital francesa, a Grande Médaille de Vermeil.

No seu último concerto, recebeu também a chave da cidade de Lisboa, uma honra dada habitualmente apenas aos chefes de Estado que visitam Portugal.

O intérprete de “Vim para o Fado e Fiquei” foi agraciado com o Grau de Comendador da Ordem do Infante Dom Henrique, a 04 de Setembro de 1997, pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio, e com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Mérito, a 28 de Novembro de 2016, pelo actual chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

O fadista nunca realçou nenhuma das grandes salas onde atuou. Preferiu, sim, salientar as comunidades emigrantes portuguesas onde foi sempre “recebido como um rei”, contou à Lusa.

Aos mais novos, com quem confraternizou e partilhou estúdios e palcos, como Camané, Mariza, Marco Rodrigues, Ricardo Ribeiro ou Cristina Branco, deixou um conselho: “Quem fizer uma carreira como eu fiz – e há gente da nova geração, felizmente, que a está a fazer -, com ar paternalista, recomendo: ‘cuidado com a tua saúde, vai, faz, tens todo o direito, quanto há vento é que se molha a vela, mas muito cuidado com a tua saúde, estas coisas da saúde não avisam e quando tu estiveres mal é que vais ver que o esforço é inglório'”.

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