Como se nada fosse

Parece que os portugueses pouco se importam com as pequenas desgraças individuais, preocupando-se com as grandes desgraças globais. E assim vai acontecendo, havendo da parte dos jornais e telejornais uma escolha seletiva das novidades para que nada perturbe esse viver em que se escondem amarguras coletivas. Ninguém parece valorizar os desgostos dos que trabalhavam para bancos mal geridos como o BES, BPN e outros que ficaram desamparadamente abandonados nas suas vidas tristes, escondidos dos transeuntes nas ruas das nossas cidades, vilas e aldeias, esperando todos que tenham resiliência quanto baste para que a sua miséria não perturbe o nosso viver.

Enquanto isso, tentando impedir que estas notícias tristes perturbem o nosso viver, os fazedores de opinião e de mercados ridentes afastam dos nossos olhares estas coisas tristes que assim quase nunca vemos. Nem sequer nos deixam intuir que muitas das carências dos nossos equipamentos coletivos como hospitais e escolas resultam das escolhas perversas dos homens e mulheres que, com malas artes, conseguem estar nos postos de comando, onde com o pau na mão se comportam como qualquer vilão, sendo aplaudidos por terem poder e a máscara necessária para tranquilizar todos os vassalos, sendo para isso que servem as relações-públicas.

Apesar disso, os Povos de tudo o mundo mostram-se capazes de ser solidários e de conviver cordialmente com todos os seus vizinhos e, até, de serem solidários com todos os que se perdem na noite escura por força de um enganador desvio de trajeto por haver obras na estrada, que um qualquer responsável por o fazer não o ter assinalado devidamente. Queixam-se por isso os restaurantes afetados por desvios de clientes que têm de ir almoçar a outros lado ou passar alguma ou muita fome. Eu gasto é muita desta gasolina cara e bem cara para fazer as viagens que preciso realizar.

Perguntando nós porque é que isso acontece, chegamos à conclusão de que a causa é um qualquer lugar estar ocupado por um senhor a quem deram uma guitarra e não tem unhas, saindo de tudo o que faz uma fífia incessantemente repetida, perdendo-se assim tempo e dinheiro e adiando sine die a satisfação de um qualquer anseio social.

Não admira que muitos achem pouco satisfatório o funcionamento da democracia e dos partidos que a corporizam, fazendo proliferar os movimentos independentes.

Tentando viver e sobreviver muitos portugueses entraram euforicamente no Carnaval, causando estranheza nalguns lugares por onde passaram, provocando suspiros de alívio quando finalmente partiram. Estamos assim perante um forte e até violentamente expresso desejo de voltar a uma vida normal pós pandemia, que transparece na forma como o trânsito surge intenso e perigoso nalgumas horas nas cidades.

Entretanto os processos judiciais de algumas fraudes mais mediáticas, crimes de tráfico de diamantes que envolvem as nossas forças armadas, eleições polémicas em caixas agrícolas e variadas corrupções, bem como algumas mortes mais mediáticas como a de Giovanni Rodrigues parecem estar adormecidas por força de segredos de justiça, que ninguém tenta desvendar e castigar os criminosos que, neste dolce far niente, vivem bem, fazendo o necessário para não serem notados no meio das ruas vazias de um Portugal, que continua a ser esvaziado da sua gente que aqui não encontra com que viver.

Enquanto isso acontece, eu procuro desvendar os segredos de algumas vilas e encontro histórias de sempre que mostram como moralmente pouco evoluímos. E assim, nós os que andamos por aí tentamos viver como se tudo fosse normal, mas que, de facto, sabemos, não o é de todo…

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