Cultura, Memória e Identidade

A alimentação, estruturada como uma fidedigna cozinha, acaba por se metamorfosear numa autêntica marca, através da qual os cidadãos se podem direccionar, identificar e diferenciar. Mais do que rotinas e atitudes alimentícias, a cozinha envolve configurações de inteligência, discernimento e manifestação de uma determinada feição da “alma”. Será que os costumes alimentares não pertencem a uma doutrina cultural simbólica, que esclarece e assinala os produtos alimentares que são edíveis e aqueles que não o são? Será que esses símbolos culturais não elaboram e comunicam algumas teses sobre a sociedade em que vivemos?

Com a disseminação da cultura fast food, há um género de abrandamento das aplicações culinárias regionais e uma aclimatação à cultura alimentar moderna. No âmago desta transformação, as colectividades deixam de desfrutar da comida local e dos sabores tradicionais. Na verdade, são estes paladares tradicionais que nos indicam a nossa identidade, personalidade e cronografia. Será que a boa e tradicional gastronomia alguma vez pode ser totalmente ofuscada pela comensalidade alicerçada na identidade universal e sem singularidades locais? Será que não são necessárias políticas públicas que defendam e tonifiquem a gastronomia como bem cultural? Será que as políticas públicas não devem desembaraçar as conexões existentes entre Estado, política, história cultura, mercado, sociedade, gestão e economia?

As políticas públicas, depois de articuladas e prescritas, desembrulham-se nos projectos e programas colocados em funcionamento, constituindo-se, caso sejam profícuas e bem delineadas, instrumentos capitais de desenvolvimento e aperfeiçoamento, nomeadamente no domínio regional. A esmagadora maioria das medidas dos Governos está vinculada às ferramentas da política económica. Será que as políticas públicas de cariz social e cultural não transportam um contributo relevante à construção e organização da própria “legalidade”? Será que as políticas públicas culturais, particularmente as que se encaminham para a salvaguarda das identidades culturais, não constituem contextos essenciais para a edificação de diagramas com a chancela do desenvolvimento?

Os conhecimentos sobre gastronomia local, assim como as formas de produção dos ingredientes, colaboram para o desenvolvimento social, ao conservarem os apanágios culturais, e contribuem para o desenvolvimento económico, criando emprego e receitas. A realidade patenteia que o progresso não ocorre unicamente através do crescimento económico, uma vez que o progresso abarca a evolução em múltiplos itinerários, ou seja, no económico, no social, no político, no histórico, no cultural, no rural, no urbano, no ambiental e no humano. A cultura, para além de outros tecidos, também compreende as tradições, os estilos de actuação dos povos e a gastronomia. De ressalvar que a participação popular, em circunferência local e regional, também contribui consideravelmente para o desenvolvimento corpóreo das políticas públicas. Será que as políticas públicas já conhecem a totalidade da diversidade cultural, bem como a “temática” do património material e imaterial de Portugal? Será que o poder público não deve garantir e promover o direito à reminiscência?

A gastronomia e o turismo constituem dois vocábulos que jamais se devem desincorporar. Seja qual for o destino, o turista acaba sempre por experimentar a gastronomia local. A cultura gastronómica acaba por ser uma espécie de representação da cidade, permeando o nosso imaginário pelo olfacto, tacto, paladar e visão. Será que a preocupação com as memórias e a salvaguarda do património cultural não exigem painéis de diálogo persistente?

O património imaterial é transferido de linhagem em linhagem, sendo permanentemente reedificado pelas colectividades em função da sua correspondência com o ambiente, natureza e história. Esta conjuntura não só é responsável pela germinação de sentimentos de pertença, identidade e prossecução, como também pela promoção e resguardo da pluralidade cultural e da criatividade dos indivíduos. O património jamais deve ser degustado como uma substância pleonástica que cumpre os acordos sociais.

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