Ensinar através do pequeno ecrã

O ensino à distância a que os alunos estão neste momento obrigados, na sequência da suspensão das actividades lectivas devido à pandemia Covid-19, não é original em Portugal. Nos anos 60 do século passado, a telescola foi introduzida no sistema de ensino nacional, permitindo a milhares de alunos completarem o quinto e sexto anos de escolaridade. Um dos objectivos era servir as zonas rurais isoladas.

As memórias que Edite Rodrigues Sanches guarda da telescola «são as melhores, vistas pela perspectiva de uma criança, de muita camaradagem, inclusive com os professores, que às vezes alinhavam nas nossas brincadeiras nos intervalos». Recorda «um ambiente muito familiar e seguro», «uma aprendizagem, por um lado, ao ritmo da TV, que não permitia andar para trás e pedir para repetir, mas, por outro lado, de acompanhamento muito personalizado pelos monitores, porque o grupo era pequeno», e de terem «os materiais de apoio necessários e adequados, que os professores se encarregavam de nos trazer da Guarda».
Natural de França, país onde nasceu em Maio de 1972, Edite frequentou a telescola de Aldeia Velha, no concelho do Sabugal, «talvez em 1982, 1983», não sabe precisar, «durante dois anos, mas no mesmo ano, 1º do ciclo (agora 5º), porque repeti o ano».
Funcionava no edifício da escola primária, «que ainda existe e onde ainda há escola primária e pré-primária», composto por «quatro salas, duas no rés-do-chão e duas no primeiro andar, que estavam reservadas para a telescola, uma para o 1º ano e outra para o 2º».
Os alunos, «penso que no 1º ano éramos 10/12 e no 2º mais ou menos os mesmos, não estou certa», eram auxiliados por «dois monitores (professores), um para Letras e outro para Matemática e Ciências». Aprendiam «Português, Francês, Meio Físico, Matemática, Educação Visual, Trabalhos Manuais, Religião e Moral, Educação Física e Música». «Destas últimas duas pouco ou nada fazíamos», recorda Edite Sanches, precisando que no caso da Educação Física «corríamos e fazíamos jogos no intervalo».
Só havia escola depois de almoço, «a partir das 13h00 e penso que até às 18h00», sendo que a tarde «era dividida em dois tempos: até ao intervalo tínhamos disciplinas mais relacionadas com Letras e depois do intervalo as relacionadas com Ciências e Matemática». Ao intervalo, os professores mudavam, «intercalando com o 2º ano».
Os alunos dispunham de «livros adaptados, fornecidos gratuitamente, e fichas de apoio», que realizavam «com o apoio do monitor depois de visualizarmos cada bloco de disciplina».
As aulas eram transmitidas pelas RTP 2. «Lembro-me que era a preto e branco. Não tenho memória de muitas falhas [na emissão televisiva], [tenho] mais de algumas interferências provocadas pelo próprio aparelho», diz Edite Sanches, que se recorda de «ver as aulas» em casa, «talvez quando, por algum motivo, não tínhamos escola».
As memórias que guarda da telescola «são as melhores», mas, «por outro lado, este ambiente de “conforto” dificultou-me a integração quando, no segundo ano do ciclo, mudei para a Escola de Santa Clara, na Guarda». «Aqui [naquela escola] tudo era estranho: vários professores, mudança de salas, novos métodos de ensino, falta de bases nalgumas matérias», aponta Edite Rodrigues Sanches.
A telescola, sistema de ensino via televisão, lê-se na infopedia.pt, serviço da Porto Editora, arrancou em Portugal a 6 de Janeiro de 1965, com programação produzida nos estúdios da Radiotelevisão Portuguesa do Monte da Virgem, no Porto. Os alunos eram acompanhados nos postos de recepção por monitores. A intenção era permitir o cumprimento da escolaridade obrigatória, na altura constituída pelos quatro anos da Escola Primária e os dois do Ciclo Preparatório. A nível geográfico a telescola pretendia servir as zonas rurais isoladas e zonas suburbanas com escolas superlotadas.
Ao longo dos anos, a telescola foi mudando a sua designação do inicial Curso Unificado Telescola para Ciclo Preparatório TV e Ensino Básico Mediatizado (EBM).
Em Julho de 2003 foi anunciado que a partir do ano lectivo 2003/2004 iriam começar a ser extintas as escolas do EBM, na altura cerca de 320, dedicadas ao ensino do 5.º e 6.º anos. Em 2001/2002 havia cerca de 5200 alunos inscritos em EBM, com uma taxa de sucesso na ordem dos 90 por cento. A telescola portuguesa foi uma das mais bem sucedidas na Europa.
Gabriela Marujo

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