Ensino técnico foi «absolutamente necessário»

Um novo tipo de oferta educativa era «absolutamente necessário» na Guarda dos anos 50 do século XX. «Só existia o Liceu como possibilidade de pessoas avançarem para o ensino superior», recorda Manuel Jorge Proença, «e a Escola Industrial e Comercial da Guarda», da qual foi director durante «aproximadamente 16 anos», «surgiu aqui nesta cidade como um elemento educativo para classes que não pretendiam seguir estudos superiores mas sim uma profissionalização decente onde ganhassem a sua vida». «A vida das aldeias naquele tempo era muito mais difícil do que hoje. De maneira que as pessoas procuravam o ensino que as capacitasse para a vida futura», diz ainda a propósito.
Prova da necessidade da criação da escola técnica foi o elevado número de inscritos, vindos «principalmente das aldeias e vilas». «Aqui da cidade havia mais facilidade dos que cá habitavam de irem para o Liceu porque não tinham que pagar», explica. «Quando vim para a Guarda, há perto de 60 anos, a escola tinha 80 alunos e passados dez anos tinha mais de mil», afirma Manuel Jorge Proença, que completou 100 anos no passado dia 3 de Julho. «Quando cá cheguei, em 1957, era uma cidadezinha de seis mil ou sete mil habitantes, veja-se a diferença que hoje vai em habitação e o que ela progrediu. Só quem tiver muita idade é que sabe avaliar o percurso que fez a cidade como cidade», constata.
Quanto à criação da Escola Industrial e Comercial, em Agosto de 1956, por decreto,que também veio permitir que mais mulheres estudassem, esclarece que «quem fez o pedido oficial foi o Grémio do Comércio da Guarda, esse é que fez o pedido oficial para as estâncias superiores, e depois interveio a parte política do governador civil, do presidente da Câmara para que de facto essa escola fosse criada e que surgisse como elemento educativo». Manuel Jorge Proença foi «logo nomeado director». «Antes de mim esteve um senhor professor formado em Matemática que só se aguentou cá um ano, dr. Carlos Figueiredo», recorda.
Dos «aproximadamente 16 anos» que dirigiu aquele estabelecimento de ensino guarda as melhores recordações, destacando que «milhares de alunos tiveram a educação nessa escola». «Em maquinaria era talvez a melhor escola do país porque foi equipada com os melhores instrumentos que havia na altura, máquinas de toda a ordem, sublinha.
Tudo mudou nos finais da década de 1970. «Veio o 25 de Abril e os directores de uma maneira geral foram todos substituídos por elementos ligados ao novo regime que havia de surgir». Foi o caso de Manuel Jorge Proença, embora «a seguir» tivesse sido contratado «para a escola chamava-se então do Magistério Primário na Guarda, onde estive seis anos como professor, e mais tarde fui nomeado ainda para presidente da Comissão Instaladora da Escola Superior de Educação da Guarda».
Mas em seu entender foi a criação das escolas secundárias que ditou o fim da Escola Industrial e Comercial da Guarda. «Na minha maneira de pensar foi um erro político muito grande na medida que estavam a confundir as escolas como se cada uma delas não tivesse a sua identidade própria», considera.
Questionado se se justificaria a existência de uma escola técnica, Manuel Jorge Proença responde que «hoje em dia, com esta evolução da técnica e da tecnologia, seria preciso mudar muita coisa».
Opinião idêntica teve José Rodrigues Gomes, que exerceu funcões de sub-director na Escola Industrial e Comercial, desde o seu terceiro ano de funcionamento, e na Secundária da Sé. Acérrimo defensor do ensino técnico, este antigo responsável afirmou 2006, ano em que se comemorou o 50º aniversário da Escola Industrial e Comercial da Guarda, que «foi um erro ter-se acabado com esse ensino. Continuar a aperfeiçoá-lo e a adaptá-lo teria sido melhor».
Com este processo de transição, que aconteceu «salvo erro, em 1978, altura em que saiu o Decreto que acabou com os liceus e as escolas técnicas», «parece-me que o país ficou a perder», disse José Rodrigues Gomes.
GM

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