Glaciar de fogo

É incontornável que, ao escrever, me fuja a mão para a calamidade que se abateu sobre nós e ultrapassou o pior da nossa imaginação!

Sim! Durante anos, nem sequer ousávamos imaginar, porque o temíamos, que o fogo pudesse galgar as encostas sobranceiras a Manteigas!

Dizíamos, nesses momentos de inquietude, que ali entrado, ninguém o seguraria!

Muitas vezes o fogo o tentou!

Sempre, os Bombeiros de Manteigas, com abnegação, voluntarismo, amor ao terreno e um comando certeiro e conhecedor, evitaram o pior, contando com a ajuda rápida de corporações vizinhas.

Poderia aqui enunciar o nome de todos aqueles que, ao longo de quase sete décadas, comandaram o corpo ativo em Manteigas e finalizar com um enorme Obrigado a eles e à Corporação, por esse e outros feitos, que esta crónica ficaria feita. Mas, referenciar todos, poderia levar-me a esquecer algum, pelo que o meu agradecimento fica através de três comandantes que não estão mais entre nós (Srs. José Francisco, José Serra e Joaquim Teixeira) e se tornaram referência dos nossos Voluntários.

Isto num tempo em que o comando das operações ficava a cargo do comandante local por ser ele o conhecedor do terreno…

Talvez por esta subtileza de comandos se tenham levantado tantas vozes pela forma como o ataque ao incêndio se fez, menosprezando o fogo na sua fase inicial e deixando-o progredir até ao cimo do vale glaciar, quando um ataque musculado poderia levar a um desfecho diferente.

(As vozes sábias dizem-nos que as primeiras 4 horas são fundamentais para evitar que o mesmo perdure por dias!)

Não querendo acreditar que apenas a Volta a Portugal em bicicleta tenha condicionado o ataque ao incêndio (no domingo a prova subia à Torre), já que entre o seu início e a passagem da prova houve uma janela de tempo com mais de 24 horas para o combater e extinguir, houve contudo decisões que não obstaram a que o monstro durasse uma semana e consumisse mais de 14 mil hectares de paisagem protegida, grande parte dela em Manteigas.

Agora, extintas as chamas, é altura de cuidar do terreno para que a erosão e a contaminação das linhas de água não tragam consigo outro drama.

Uma última palavra aos políticos: apenas ao sexto dia a Secretária de Estado falou, enquanto hoje, domingo, não ouvi (talvez por distração) uma única palavra do Ministro do Ambiente!

E sim… como sempre tenho afirmado, podemos ter a mais bela paisagem do mundo, mas para Lisboa valemos pouco mais de 2 milhares de votos! E isso notou-se!

Bem-haja a quantos enfrentaram as chamas durante dias e noites com sacrifício pessoal e físico, não deixando o monstro avançar mais!

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