Hipocrisias

Estar na oposição é sempre mais cómodo que estar no poder.

A frase ouve-se há muitos anos e volta e meia repescamo-la ao ouvir declarações políticas.

Estar no poder é fazer contas, perceber onde buscar o dinheiro que se vai gastar e como, tomar, tantas vezes, decisões de que de todo se não gosta, ou não serão simpáticas, mas que no momento terão de ser implementadas. No fundo é decidir!

Vem isto a propósito da redução do valor das portagens, recentemente aprovados no parlamento numa “coligação negativa”. A que nos permitirá viajar mais barato nas SCUT, mas não gratuitamente, como o nome deixava transparecer.

Claro que pagar metade é sempre melhor que pagar a totalidade! Quem viaja para a Guarda e região, sabe o quanto esse custo continuará a onerar a viagem. Tantas vezes ironizei (noutros tempos em que a pandemia não existia) que ir de Lisboa a qualquer capital Europeia era bem mais barato que chegar à minha terra!

Por isso, não deixando de apoiar a redução, custa-me assistir à hipocrisia política que partidariamente, legislatura após legislatura, se faz em torno desta, ou outra luta, conforme se está no poder ou na oposição.

Ao longo das várias legislaturas destes 46 anos de democracia, muitas foram as vezes em que os deputados do distrito, de uma ou de outra cor, votaram contra interesses das populações pelas quais foram eleitos, obrigados a cumprir a disciplina de voto imposta pelo partido.

Algumas vezes terá sido permitida uma quebra à disciplina. Sobretudo quando a afirmação e o peso local de um deputado o possibilitava, não pondo, claro, em risco o resultado da votação.

Talvez seja esta uma das razões do alheamento de tantos face à política!

É que nem todos, por mais esclarecidos que sejam sobre as nuances políticas, gostam destes jogos, retóricos e demagógicos, que nos lembram hoje um posicionamento, esquecendo que ontem tivemos o seu contrário.

E sim! Numa década vimos Lisboa, Porto e outras cidades ficarem mais longe devido aos custos que as portagens vieram acrescentar à viagem.

Viagem em que os políticos se esquecem tantas vezes dos cidadãos do distrito e não raras vezes da posição que tiveram conforme estavam no poder ou na oposição.

In memoriam: Morreu-nos uma voz que não esqueceu nunca o lugar em que nasceu, apesar de se ter tornado cidadão do mundo. Ao calar-se a sua voz, ficamos mais pobres.

Obrigado Eduardo Lourenço.

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