Jarmelo como te amo

Demorei anos a ler a Montanha Mágica de Thomas Mann. Demorei bem mais anos a sonhar o Jarmelo na sua magia indecifrável como paisagem humana de um Povo que teve de o abandonar para viver. Aqui se fazia uma agricultura sem expetativa de abundância ou tão só de uma frugalidade que baste. Cheio de esperança escrevi textos sobre uma vaca, mas não escrevi sobre os insetos que a acompanhavam e foram descritos pelo brigantino Manuel Paulino de Oliveira, professor de Zoologia na Universidade de Coimbra, que casou num mítico Vale de Azares, aproveitando o verão que aqui passava para os observar.

Antes muitos disseram que iam levar uma Carta a Garcia, um general que podia mudar o mundo e não o mudou. Tudo não passou de algo mítico que nada resolveu porque o poder luso nada resolve e tudo promete. E assim vivemos desde sempre. Quase.

Lembro-me de nos meus dez anos encontrar na Feira dos Gagos a minha avó Rosa a vender ovos para assim conseguir uns escudos para comprar outras coisas. Vivia-se então uma economia de subsistência, onde os anos se sucediam sem que a vida das pessoas mudasse. Mostrava então o Estado Corporativo a sua falência, mas a emigração em massa no nosso interior ainda não ameaçava fazer a sua desertificação humana.

Vivia ainda a sua gente a ilusão de que uma gente que muito prometeu como mudança invertesse o rumo de uma historieta falsa, em que muito se trabalhava afanosamente e nada se mudava. E todos os dias havia gente que partia a salto, atravessando clandestinamente a fronteira, enquanto outros clandestinos dentro das nossas fronteiras tentavam mudar o regime que, amedrontando-nos, nos amesquinhava. Sentíamos já os ventos de uma Europa que não pensava senão em captar mão-de-obra, que aumentasse o lucro das suas fábricas e lhes cultivasse os campos, enquanto os do Jarmelo e de outros lugares da Beira se esvaziavam.

Tudo demonstrava como o Estado Novo nada mais era do que um Estado Velho, porque sem capacidade para ultrapassar os problemas de antanho pois não tinha isso como objetivo. Apenas queria manter tudo como dantes, embora o quartel general já não estivesse em Abrantes de onde só saíam soldados para combater nas terras de África, que iam pouco depois deixar de ser colónias pois aí se exauriam as nossas forças, que logo que podiam partiam para França e outros lugares da Europa.

Veio Abril e nos tempos seguintes ainda íamos á Feira do Jarmelo em burros que ainda havia. Encontrávamos na nossa montanha mágica vacas, ovelhas e cabras que entravam em concursos de beleza, dando prémios aos seus zelosos cuidadores. E assim o tempo ia passando sem que sentíssemos que o tempo da sua extinção se aproximava.

Procurei afanosamente nas bibliotecas e nos arquivos os elementos da utopia ainda possível. Encontrei heróis como José Anastácio Monteiro. Tentámos convencer o poder a fazer o necessário para que tudo mudasse para melhor e não conseguimos que mudasse. Continuou apenas a fazer o que os poderes ocultos lhe ordenavam.

Inventou qua nada seríamos se não cumpríssemos o nosso destino europeu e a Europa apenas deu aos pobres agricultores, que aqui ainda sobreviviam uns trocos, enchendo de milhões os grandes agricultores de muita e abandonada terra. Os bancos, como sempre, tentaram convencer todos a deixar lá as poupanças, e um dia disseram que estas tinham desaparecido, transformando muitos em lesados do…

Restava então aos juízes o papel de dizerem teatralmente que nada conseguem julgar e castigar.

E no dia de 5 de Junho deste ano, eu como muitos outros demandaremos mais uma vez a Montanha Mágica da nossa meninice, amando o Jarmelo como desde sempre nos habituámos a fazer, prometendo mais uma vez que um dia cumpriremos sonhos longamente adiados.

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