“Mães” precisam-se na Aldeia SOS da Guarda

Continuam a faltar “mães” na Aldeia de Crianças SOS da Guarda. O problema é antigo e difícil de ultrapassar. O grau de exigência é cada vez maior e nem todas as mulheres estão aptas para ocupar o lugar. A instituição tem procurado outras respostas, nomeadamente abrindo a hipótese a homens ou casais sociais de abraçarem esta causa, mas não têm sido suficientes para resolver a questão.

 

O reduzido número de mulheres que tomem conta das crianças e jovens desfavorecidos acolhidos na Aldeia de Crianças SOS da Guarda, inaugurada a 11 de Outubro de 1986, continua a ser uma das principais preocupações da instituição, localizada no Rio Diz, a poucos quilómetros do centro da cidade.
«Neste momento temos três mães – nos últimos dez anos têm estado sempre três mães a trabalhar. O que nós precisávamos, o ideal, uma vez que temos o espaço, temos capacidade e um corpo técnico, seria mais duas mães, o que pode equivaler a mais 10, 14 crianças que eventualmente necessitem de alguma resposta ao nível do acolhimento», revela o director, Daniel Lucas.
No ano passado, a Aldeia da Guarda lançou um anúncio no Espaço do Assistente Social a «recrutar colaboradores, do sexo feminino ou masculino, em várias áreas», nomeadamente «um auxiliar de acção directa, auxiliar de serviços gerais, técnico de Serviço Social e Mãe/Pai ou Casal Social (auxiliar de acção educativa)».
Surtiu efeito. «Conseguimos duas pessoas, duas novas mães, que estão aqui há seis meses, e a fazer um trabalho muito bom», concretiza o dirigente, ressalvando que «uma vez que temos capacidade para abrir novas casas estamos sempre a precisar de gente». «Nós queremos abrir uma nova casa e se houver alguém que se queira candidatar pode vir à Aldeia de Crianças SOS da Guarda, ou então via Internet, fazer a sua candidatura que nós teremos muito gosto em receber e fazer os nossos processos de selecção», apela.
Selecção essa cada vez mais exigente. «Cada vez mais, uma vez que este ano fazemos 30 anos, estamos já numa fase mais adulta, queremos dar uma resposta mais adequada às necessidades destas crianças e destes jovens, e, cada vez mais, procuramos dar respostas com qualidade desta exigência», assume Daniel Lucas. O que só é conseguido com «”mães” mais capazes, com mais capacidade de dar resposta a estas novas crianças e jovens, diferentes de há 15, 20 anos, mais exigentes também, com mais formação». «Os requisitos da “mãe”, a essência, a parte dos afectos, do carinho, da entrega, da dedicação, é importante e tem que estar inerente nesta função, mas também precisamos sempre de uma parte mais técnica, no fundo um olhar mais crítico da nossa acção para podermos também ter alguma capacidade de avaliação e de melhorar cada vez mais», especifica.
E é nessa perspectiva que surge uma nova resposta, já implementada noutros países. «Já não se coloca só a figura da mãe como esta pessoa de referência. Há já possibilidade de haver pai social ou de casal social, são novas modalidades, mas queremos manter a essência, que é a parte dos afectos, do olhar crítico, e com mais qualidade», explica Daniel Lucas. E «talvez por isso seja tão difícil às vezes arranjar pessoas, seja para mãe social, pai social ou casal social», admite.
As questões financeiras estão também entre as preocupações da Aldeia de Crianças SOS da Guarda, que, «tal como as outras instituições, passa por um período mais conturbado». «A crise é transversal às instituições e às famílias, evidentemente que todos os donativos, toda a ajuda, mesmo que seja pouco, seja o que fora, é sempre bem-vinda porque estamos sempre a precisar e nós ficamos muito gratos com essas dádivas», conclui Daniel Lucas.

 

Suspeitas de maus-tratos e agressões marcam história da instituição
A história da Aldeia de Crianças SOS da Guarda ficou marcada pelas suspeitas de maus-tratos, agressões e rituais satânicos. A polémica estalou em Abril de 2003, com vários depoimentos tornados públicos na comunicação social, a maior parte vindos de ex-utentes. As suspeitas recaíam num monitor brasileiro, Paulo Buzzo, então com 30 anos, e em António Correia, com 57, marido da directora, Maria do Céu Correia.
Doze agentes da Polícia Judiciária revistaram as diversas casas da instituição e ainda uma quinta, propriedade da família da directora, situada na Urgueira, próxima do Jarmelo, tendo levado alguns documentos. Na bagagem foram, adiantava Maria do Céu Correia, um relatório da última Inspecção da Segurança Social, uma carta que a directora escreveu ao marido, um memorando em que António Correia fazia algumas recomendações ao monitor, uma carta de uma professor da Universidade de São Paulo em que eram explicados os «mistérios luminosos» e um dossier com as queixas das crianças.
António e Maria do Céu Correia diziam-se de consciência tranquila e consideravam que tudo isto visava incriminar Paulo Buzzo, na altura há um ano na instituição, exercendo as funções de monitor, encarregado, motorista e supervisor.
«É para se vingarem por ele andar a lutar contra o tráfico de droga dentro da Aldeia SOS», referia o casal, convicto que tudo não passaria de falsas histórias, sublinhando que muitas delas, em forma de carta anónima, já tinham sido alvo de um inquérito no ano anterior (2002), levado a cabo pela Associação Nacional das Aldeias SOS de Portugal, que concluiu que «a carta parece ser uma perseguição e vingança destituída de realidade».
Maria do Céu lamentava que as denúncias tivessem partido de ex-utentes que curiosamente tinham vindo a ser ajudadas, mesmo a nível monetário. Em relação às duas jovens que ainda se encontravam na instituição e que estavam a contribuir para alimentar o caso, aquela responsável dizia que «foram aliciadas com promessas de que se falassem poderiam regressar para a família».
A directora garantia, em declarações ao TB, que o processo de admissão de Paulo Buzzo foi idêntico a qualquer outro funcionário da instituição, não lhe poupando elogios. Todo o grupo que estava com o monitor estava «perfeitamente recuperado, com sucesso escolar e sem maus vícios», assegurava.
Paulo Buzzo, que negou todas as acusações de que foi alvo, confirmava a este semanário as declarações de Maria do Céu Correia, dizendo que no ano anterior o sucesso escolar tinha sido «um caos», mas que o problema estava ultrapassado. Afirmou ainda nunca ter tido problemas com a justiça nem ter agredido nem maltratado os jovens da instituição, referindo que algumas das raparigas que fizeram a denúncia estavam «apaixonadas» por ele, sendo por isso uma espécie de vingança.
Um mês depois da polémica estalar, em Maio de 2003, Paulo Buzzo não viu renovado o seu contrato de trabalho. A decisão foi tomada pela Direcção Nacional das Aldeias SOS de Portugal por uma questão de prudência, até que fossem apurados os factos de que estava a ser acusado.
Em Setembro do mesmo ano seria oficialmente afastado da instituição.
Ainda antes de estarem finalizadas as investigações, Maria do Carmo e António Correia puseram fim a um ciclo de 17 anos à frente da Aldeia de Crianças SOS da Guarda, sem contudo confirmarem se foram convidados a sair ou se foi de livre vontade.
O relatório dos investigadores viria a apontar para a não existência de indícios criminais. Idêntica conclusão tirou o Ministério Público, que arquivou o caso.
Dias antes do TB noticiar esta decisão, em Julho de 2004, Maria do Carmo Correia afirmava lamentar ter abandonado a Aldeia SOS por causa deste caso. Na sua opinião, tudo não passou de «uma trama muito bem montada», colocando sérias dúvidas de que algum dia se poderá vir a saber quem foram os responsáveis.
Meses depois, garantia ter partido com a consciência «absolutamente» tranquila e que a sua saída não tinha a ver directamente com a investigação, mas somente com uma questão pessoal.
GM

Gabriela Marujo
gabmarujo.terrasdabeira@gmpress.pt

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