Mais de 40% dos médicos do Centro apresenta sinais de exaustão emocional

m estudo realizado pela Secção Regional do Centro Ordem dos Médicos (SRCOM) conclui que 40,5% destes profissionais apresenta sinais de exaustão emocional e que um quarto dos médicos obteve pontuação elevada na escala de depressão.
O estudo, feito a partir de um inquérito em que participaram 1.577 médicos (20% do total de inscritos na secção – 8.042), refere que 40,5% tem sinais de exaustão emocional, 17,1% dos médicos apresenta despersonalização (atitudes negativas, cinismo, insensibilidade e irritação) e 25,4% não realização profissional.
Sete em cada cem dos inquiridos apresentam sinais de ‘burnout’ elevado (conjugação de exaustão, despersonalização e não realização profissional), sendo que, desses, mais de metade têm idades compreendidas entre os 26 e os 35 anos, aponta o estudo a que a agência Lusa teve acesso.
O estudo identificou ainda que 24,5% dos profissionais de saúde obtiveram pontuação elevada na escala de depressão, 16,5% na escala de ansiedade e 16,4% de stress. Dos inquiridos, 14,6% «é ou já foi acompanhado em consultas de psiquiatria» e um em cada dez é ou já foi acompanhado em consultas de psicologia clínica.
A doença crónica mais referida no inquérito da SRCOM é a hipertensão arterial (17,4%), seguindo-se de asma (14,2%) e diabetes (6,5%). Apenas 11,8% dos médicos pratica meditação ou técnicas de relaxamento e 44% afirma que pratica uma atividade desportiva. O estudo sugere que mulheres e profissionais na faixa dos 36 aos 45 anos apresentam valores de exaustão emocional mais elevados.
O presidente da secção regional da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes, afirma que estava «à espera de resultados desta dimensão», contando que nas várias visitas que faz na região Centro encontra «o impacto do “burnout” nos médicos».
Para Carlos Cortes, «todos os profissionais do Serviço Nacional de Saúde estão expostos ao risco de ‘burnout”, em maior ou menor grau». «Ninguém está imune», alertou, considerando que, «se não houver uma reversão muito rápida», promovida pela própria tutela, poderão surgir «situações muito gravosas», que afectam a própria qualidade e eficiência do serviço prestado nos hospitais e centros de saúde do país. Segundo o presidente do SRCOM, o estudo foi também realizado com o intuito de se fazer um «levantamento do problema e criar um dispositivo para prevenir o “burnout”» e instrumentos para tratar os médicos que sofrem desta doença.
O estudo desenvolvido pela secção decorreu de Janeiro a Dezembro de 2015, tendo sido realizadas sete sessões de sensibilização em diferentes locais da região Centro sobre factores que potenciam o “burnout” e estratégias de prevenção do mesmo. 63,2% dos médicos presentes no estudo são mulheres e a idade média da amostra é de 42,83 anos. A participação foi voluntária e anónima e foram utilizados instrumentos de medida “internacionais”, permitindo que o estudo «possa ser usado do ponto de vista científico», frisou Carlos Cortes.

Quase 20% dos médicos na região Centro trabalha mais de 60 horas por semana
O estudo da SRCOM centrado na problemática do “burnout” conclui que 18,7% dos médicos trabalha mais de 60 horas por semana. O estudo refere que 15,9% dos inquiridos trabalha 60 a 80 horas por semana, 2,8% mais de 80 horas e 53,2% entre 40 a 60 horas, sendo que mais de metade dos profissionais que participou no estudo faz serviço de urgência.
Os médicos de medicina geral e familiar são os que apresentam mais sinais de “burnout” nas suas três dimensões (exaustão, despersonalização e não realização profissional), seguindo-se os profissionais de medicina interna, cirurgia geral e neurologia, aponta o estudo a que a agência Lusa teve acesso. Os médicos mais novos apresentam níveis mais elevados de exaustão emocional, bem como aqueles que trabalham mais de 40 horas e os profissionais que realizam trabalho nocturno e serviço de urgência.
Os resultados do estudo sugerem que os profissionais da zona Centro que têm actividade médica hospitalar e que trabalham em instituições públicas apresentam maiores níveis de exaustão. «Tem havido uma pressão crescente sobre os médicos e profissionais de saúde» em torno de questões «que têm muito pouco a ver com a ideia que os médicos têm da sua profissão», disse à agência Lusa o presidente da secção regional da Ordem dos Médicos, Carlos Cortes.
A pressão para uma «produção desenfreada de dados médicos», o «excesso de burocratização do Serviço Nacional de Saúde», a sua desorganização, a falta de «meios complementares de diagnóstico, de meios farmacológicos e de recursos humanos», bem como as «disfuncionalidades dos sistemas informáticos» vêm dificultar o trabalho do médico e potenciar situações de “burnout”, sublinhou.
Segundo Carlos Cortes, a carga horária e de trabalho a que os médicos estão sujeitos têm uma «implicação imediata», considerando que o facto de haver cerca de 20% dos médicos a trabalhar mais de 60 horas é «um dado que tem de obrigar o Ministério da Saúde a reflectir». Para o responsável da SRCOM, o fenómeno do “burnout” foi amplificado com a crise económica d’«a desorganização que reina no Serviço Nacional de Saúde tem um impacto muito negativo sobre os médicos».
O estudo, que decorreu de Janeiro a Dezembro de 2015, vai agora ser divulgado às entidades.

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