Memória Construída

tb_1183

Da religião à técnica, da ciência à abstração, tantas são as formas de saber. Uma vida é, sem qualquer dúvida, tempo insuficiente para absorver os mundos que nos circundam. Caímos, tantas vezes, no erro limitador de nos fecharmos na área de conforto, aquela que aprendemos numa sala de aula ou na práxis quotidiana na qual se labora, e ficamos na caixa do que somos, esquecendo o que poderíamos ser. Ousar é arriscado e o tempo incute maior dimensão ao medo, riscando o agir. A idade agiganta o temor e diminui a sede de voar. Está-se mais cansado, dá-se preferência ao conforto e à segurança e não se muda o sistema que funciona. A evolução observa-se de fora como qualquer coisa que está a acontecer, não nos interessando mergulhar na sua radicalidade. Abandona-se a idade dos porquês cedo de mais e impera a vontade de verdades absolutas, de insquestionamentos, de raciocínios de lógica simples e limitada. O sentido pouco importa enquanto houver relógios que trabalhem e amanhã será um outro dia. E já tudo se sabe, cada vez são mais o que pensam ser doutos e iluminados de uma cultura induvidosa provada por um diploma assinado. Para tudo há conclusões, como se a vida fosse um projeto literal. Tantas verdades geniais enquanto os verdadeiros génios desfazem todo e qualquer ciclo fechado, porque o conhecimento é a ideia de horizonte aberto e inalcansável.

O nosso olhar sobre o mundo revela-nos e eu prefiro assombrar-me pela minha ignorância ao deslumbrar tudo o que invade a vista do cimo de uma montanha do que gerar aplausos pela minha assertividade científica e programada de uma apresentação inquestionável. Perguntem-me quem sou, o que faço aqui, questionem-me sobre a minha insignificância num mundo desconhecido, falem-me da morte, abram universos a cada pergunta, não me deem por concluídas respostas, não me aceitem a razão. Eu não sei e parto de princípio de que ninguém sabe, não quero saber, quero conhecer, poder ser surpreendida pelo desconhecido, pelo outro, pela História, pela Obra. Não me interessa marcar o meu lugar no mundo, interessa-me um mundo sem lugares marcados, onde as marcas incitem à descoberta de outros mundos.

Nunca decorei caminhos e não tenho pretensões de o fazer. Perder-me-ei as vezes que forem necessárias, pois em cada engano há uma nova descoberta.

Nas palavras de Florbela termino: “Que me saiba perder para me encontrar“.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

O website do Terras da Beira utiliza cookies para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Ao continuar a navegar está a consentir a utilização de cookies Mais informação

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close