Não consigo respirar!

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Digam-me o século. Por favor, repitam. Vinte e um? Isso significa mais de dois mil anos de evolução genética e social, não é? Sinto-me confusa e Darwin já não está por cá para me esclarecer.
Por favor, ajudem-me. Teria eu mais valor e credibilidade se nascesse homem? Seriam as minhas palavras mais eloquentes e poderosas? Teria maior poder e influência na sociedade? Possuiria maior dignidade e respeito? Teria uma palavra simplesmente por dizer uma palavra? Seriam os meus atos invulgares tidos como valentia ao invés de cobardia? Teria legitimidade para matar alguém que me rejeitasse? Seria um herói ou quem sabe um todo-poderoso? Permitiriam-me usar o piropo como veículo para a minha vontade animalesca? Poderia ter várias mulheres sem julgamento e julgar as que se julgam?

Vou repetir, e se eu fosse um homem e matasse uma mulher pelo simples facto de ela ousar não me querer? Eu até escrevo para um Jornal, por que não trocar as armas e usar um bastão? “Independentemente de tudo, é uma excelente pessoa” – não, não percebi. É o quê?!

E se a minha cor de pele fosse mais escura? Se a minha raça fosse outra? Seria menos merecedora de respeito? Seria inferior por ser preta? (e disse preta, porque negra foi a peste). Seria o meu apelo de ajuda insignificante por eu não ser branca? Olhar-me-iam com desconfiança e desdém por ter um tom de pele diferente do vosso? Permitiriam que me matassem em praça pública como se a minha vida não importasse? Culpar-me-iam por existir e co-habitar o mesmo mundo que o vosso? Se eu fosse preta era menos pessoa? Será que não poderia escrever para um Jornal ou assumir um cargo público? E emprego, dar-mo-iam? Excluíram-me pelo fator cor? Culpar-me-iam pelos crimes que não cometi só por estar na mesma rua que eles?

Repito, e se me matassem em praça pública sem dó nem piedade, será que o permitiriam?

Que disparate, estamos no século XXI e somos cidadãos perfeitamente evoluídos e estamos mais unidos que nunca com esta pandemia. Isso é coisa do passado.

Não é e quero deixar um alerta: isto é o retrato do retrocesso social. Estamos a assistir a uma força do mal gerida pela extrema-direita. O ódio, o medo, as armas, o desamor, a barbaridade, a ignorância, a maldade, tudo isto debaixo dos nossos olhos. A sociedade caminha para um lugar onde não vamos gostar de estar.

Portugal não é exceção e o país à beira mar plantado está a ter ondas muito altas que nos poderão afogar a todos. Estejam atentos e não se deixem levar pela corrente porque não vão conseguir sair dela vivos.

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