Não, não ficará tudo bem

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Não, não ficará tudo bem

Nove anos. Culpam o vírus pelos males do mundo, escondendo, por entre máscaras a maldade humana. Uma criança. Talvez o vírus só queira salvar a Terra da desumanidade dos Homens. Um homem que se diz pai. O país alarma-se com o contágio de algo que não se vê. Tortura prolongada. Alguns acusam, para se afastarem, os chineses como autores desta calamidade, não vendo a culpa e a não culpa de cada um. Morte. Acaba o oxigénio para os mais fragilizados, lutando-se com ventiladores para contornar o fim. Valentina. Se, pelo menos, as forças fossem equilibradas, talvez se pudesse recuperar. Fim. Se houvesse um hospital a isolar as vítimas do agressor, uma lei que definisse regras de distanciamento social e quem as fizesse cumprir. Um sorriso que morreu com a dor. E se todos ignorassemos os sinais e concluíssemos como normal uma criança fugir de casa do pai para procurar abrigo na mãe? Talvez ainda pudesse estar aqui. Vês as notícias? Prevalece a responsabilidade, a resiliência, o cumprimento, a consciência e o afeto. O que te fizeram, Valentina? Fala-se de futuro, de regresso à normalidade. E o teu, Valentina? Lamentam-se pelo tédio e pelo cansaço do conforto de casa. E quem se importou com a tua dor, Princesa? Reclamam-se exigências, censuram-se governantes enquanto se passeia na praia. Tu só querias a vida que te roubaram. A vida que te a tirou o homem que te fez. Volta-se, aos poucos, à rotina diária. Tu só querias poder voltar para os braços da tua mãe, para de lá nunca mais saíres. Por cá, esquece-se rápido e, daqui a uns meses, já poucos se lembram dos dias de confinamento. Tu, Querida Valentina, nunca vais esquecer a água a ferver no teu corpo; as pancadas na tua cabeça que, em derrame, só suplicava para que parassem; os berros; o pavor absoluto que sentias; a dor. A Humanidade consegue superar-se para o bem e para o mal. Por que é que te mostraram só o lado mau, se eras apenas uma criança? Temos saudades de quem amamos e queremos voltar a estar perto. Por que é que a vida te escolheu para a tua pele macia sentir a crueldade e o sofrimento? Que Deus nos preteja. Por que é que Deus não te ouviu e te deixou chegar tão cedo e tão barbaramente ao fim? Vai ficar tudo bem. E a tua vida, Valentina? E a filha que a mãe perdeu para sempre? E o teu futuro? E o teu sorriso? Os amores que não vais conhecer, as memórias que não vais criar? E a tua independência, o teu conhecimento e a tua profissão? E a família que poderias criar? As pessoas que poderias salvar? E tu, Valentina?

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