Não podemos tudo

Multiplicam-se os anseios do término do ano que mais nos assombrou, porém do que mais nos ensinou. Deseja-se 2021 como antídoto ao que nos massacrou, como uma vacina que nos apague da memória o ano devastador. O planeta olha-nos como quem olha para uma criança rebelde que tem tudo para aprender e que não vai reter as lições dadas num ano. O planeta sabe que precisamos de gerações para a consciência se adquirir. Olhar para dentro é o exercício mais difícil de todos, ainda mais sem distância temporal. Qualquer coisa havemos de ter aprendido, o que não significa que a tenhamos apreendido. A memória é curta e se há capacidade que temos é a do esquecimento e a da modelação ao conforto. Quando tudo estiver melhor, o ano de 2020 será recordado como uma lembrança daquele tempo em que todos tínhamos de usar uma máscara, período atípico onde até nos condicionaram algumas liberdades que tínhamos como garantidas. Recordar-se-á o triunfo da medicina, nos livros ficarão registados os números de mortes que a Covid-19 causou e isso terá o impacto para quem estudará como os números da morte resultante da Peste Negra tiveram para nós quando a estudámos. Tudo perde importância quando se distancia e a história deixa de ser a realidade para ser uma coisa do passado que já não nos diz respeito.
Daqui por uns tempos, já o Homem se esqueceu do privilégio que é amar de perto, do viver sem medos, da liberdade de existir e de escolher, da vida sem condicionalismos. Daqui por uns tempos, talvez até agora, o Homem não se lembrará que o planeta estava sufocado por si, que precisava de respirar e que, por isso, teve que nos assustar e ordenar parar. O Homem irá recordar o inimigo como um vírus, não percebendo que o inimigo foi o próprio Homem. Irá recordar a pandemia como um infortúnio e não como uma lição. O Homem é um ser racionalmente fraco para perceções imediatas. A Lógica não é a sua disciplina predileta.
Por aqui, ainda há pratos cheios de carne de animais ensanguentados devorados por animais com o sangue a fervilhar quando dizem que «isto é tudo feito pelos chineses». Enraivecem-se os dentes em opiniões baseadas na ignorância enquanto os carros emanam vírus para o ambiente, mas dos que ninguém fala porque o Homem pode tudo, até exterminar barbaramente um quantidade inexplicável de animais porque sim e porque pode. Tal como pode assistir a um espetáculo onde a atração é o desfile do exercício da maldade do Homem sobre um Touro. O Homem pode tudo, está no topo da pirâmide e ninguém o pode ameaçar.
2020 mostrou que talvez não seja assim, que a cobardia do Homem é capaz de o arruinar. E é muito fácil acabar com a ideia de grandeza, basta a Natureza querer.
Que se aprenda com esta lição, porque já foi provado que não podemos tudo e que, se não formos merecedores de viver em comunhão com o meio, o meio expulsa-nos.
Obrigada 2020 e que o mundo nos desculpe por termos que chegar a este ponto.  

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