O futuro à direita

Como era já expectável, Marcelo Rebelo de Sousa foi reeleito Presidente da República com 60,7% da expressão eleitoral, tornando-se o terceiro presidente mais votado desde a instauração do regime democrático. Com maior ou menor percentagem, esta continuidade no cargo era à partida um desfecho mais do que esperado, até porque, nenhuma sondagem jamais perspectivou, ainda que de forma ténue, uma possível segunda volta.

Independentemente da motivação ideológica, apreço pessoal, reconhecimento profissional ou maior ou menor gosto para lamechices fotográficas e afectos exibicionistas, todos reconhecemos que dos candidatos a sufrágio, este, era o que melhor encarnava um determinado patamar de sentido de estado, mais se aproximando da figura de estadista.

Quanto ao que esperar do segundo mandato presidencial, a história tem-nos oferecido evidências de que, sempre que existe uma reeleição, por norma há uma mudança comportamental, com a adopção de uma postura mais rígida, ou melhor, mais escrutinadora do trabalho governamental. No entanto, no caso em apreço, espera-se uma atitude relativamente alinhada com aquilo que foi o primeiro mandato, sem grandes variações de humor e/ou agendas ocultas e jogadas conspirativas para derrube do actual governo, ao contrário do que alguns vaticinam.

Situação que foi surpresa para muitos e merece muita reflexão e análise por parte dos partidos da direita tradicional, foi a expressiva votação em André Ventura. Embora sendo eleições completamente diferentes, verificamos que o Chega (desde sempre conotado quase exclusivamente com a figura do seu líder) obteve 67.826 votos na legislativas de 2019, alcançando 1,29% de expressão eleitoral. Nas eleições do passado Domingo, André Ventura obteve 496.661 votos, traduzindo-se numa fatia de 11,9% do eleitorado. Se olharmos ao número de votantes, verificou-se um crescimento de mais de 732% em menos de dois anos, importando perceber de onde vem este quase meio milhão de votantes.

Considero que mais de 85% vem de militantes e simpatizantes, descontentes com as actuais lideranças do PSD e do CDS e só uma pequena percentagem diz respeito aos crónicos anti-sistema e a ex-comunistas alentejanos que vêem em André Ventura a voz que não têm em questões particulares das suas comunidades locais.

À excepção dos últimos tempos, não tenho memória de sondagens que colocassem o PSD na casa dos 25%, 26%, 27% e o CDS próximo da extinção com 0,3%. Obviamente que sondagens “são o que são” e “valem o que valem” mas dão-nos informação preciosa quanto às tendências e comportamento do eleitorado e isso é algo que nenhum líder partidário pode ignorar.

E tudo começou quando Pedro Santana Lopes decidiu deixar o partido que tudo lhe deu e onde sempre militou e constituir o Aliança. Essa fractura que foi um autêntico bluff, deu azo à criação do Iniciativa Liberal e do Chega, com a consequente drenagem de votos do PSD para esses partidos recém formados, à qual também se somou o esvaziamento do CDS com a liderança de Assunção Cristas e em maior escala com Francisco Rodrigues dos Santos.

Tanto o CDS como especialmente o PSD, têm de rapidamente conseguir trazer para a sua esfera, todo aquele eleitorado que lhes fugiu para os novos pequenos partidos. Têm de conseguir galvanizar e mobilizar os muitos que ainda restam e abrir espaço para fixar aqueles que à sua direita lhes apresentaram agora um cartão amarelo.

E convenhamos que, à luz dos dados actuais e se por hipótese, brevemente houvesse eleições e surgisse a possibilidade de se constituir uma “geringonça” de direita, não tenho dúvidas que esta teria de obrigatoriamente integrar o Chega, caso quisesse ser maioritária. Por isso, se este é um cenário que não se deseja, há que trabalhar incessantemente para que o PSD e o CDS voltem a ter o monopólio da direita. A liberdade e democracia assim o exigem.

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