O sombrio e o luminoso

O sombrio.

Continua sombrio o Mundo. Até os cinzentões estão na moda. É Francis Fukuyama que o diz no Público…” os intelectuais conservadores têm estado a explorar a ideia de um restabelecimento de alguma forma de catolicismo conservador como religião, colocando o Estado por detrás disso e sabe quem é o seu herói? Salazar, que vêem como um modelo para os Estados Unidos”.

Uma nuvem nunca vem só.

Fukuyama em , Liberalismo e seus Descontentes (D. Quixote 2020), adiciona ViKtor Orbán a Salazar como modelo.

De mal a pior.

João Miguel Tavares, refere que em edição recente – Na cabeça de Putin ( Ed. Zigurate) de Michel Eltchaninoff – Salazar é fonte de inspiração para o regime russo.

Terror e trevas é o dia-a-dia na Ucrânia.

Mortes de civis. Em todas as idades. Violações e outras indignidades sem nome. Bombardeamentos de escolas, teatros e museus. Hospitais e maternidades como alvos de guerra no dia-a-dia. A fome no mundo (até de aliado!) como objecto de chantagem.

A História ensina-nos que até a guerra tem regras. Não é o caso! O século XXI vem grávido de paradoxos. A capacidade tecnológica é inversamente proporcional à racionalidade humana. Um país com alta capacidade tecnológica capaz de atingir alvos mapeados faz uma invasão em que leva tudo à frente, destruição maciça. Neste aspecto, Napoleão era apenas um aprendiz. Os alvos, quando seleccionados, revelam requintes de malvadez.

Como entender estes tempos?

Levando o conselho da minha mãe à letra “dar um passo atrás, para depois dar dois em frente” recuo a Aristóteles. Aristóteles ( Estagira 384 a.C.- Antenas, 322 a.C.)

Nesta estação de tectos baixos, Aristóteles ajuda-nos a ver mais longe. Não foi o tipo de autor que “ pensasse no vazio”, inaugurou, como sabemos, a “historiografia filosófica”. As acções medem-se pelas suas consequências.

Lembramos que há comentadores políticos e outros adeptos do politicamente correto, que, no passado e no presente, encontram (ou inventam) razões para a invasão. Aristóteles nunca entenderia esta invasão, nem qual quer outra, ele que sempre se considerou um “ eterno estrangeiro” em Atenas. Reafirma-se o paradigma ético baseado na noção de Virtude, entendida como meio-termo. Equidistância moral entre o excesso e o defeito. Virtude enquanto moderação, sinceridade, coragem e generosidade. Para o filósofo a preservação da convivência cívica era “algo muito valioso”. Ele lembra-nos que aqueles que não fazem parte de comunidade civil (representada pela ONU) não precisam de nada por serem auto-suficientes, não fazem parte do Estado (Concerto das Nações, diríamos hoje), são feras.

Por fim, a Justiça, a Virtude perfeita a que o filosofo dedicou todo livro V da sua Ética a Nícómaco, o único dos valores que não é relativizável. Não tem excesso nem defeito. De facto, e sem margem para dúvidas, a invasão da Ucrânia é sempre Injusta. Tanto sobre o ponto de vista da justiça universal, da legalidade; bem como da justiça particular, justiça distributiva defendida por Aristóteles que assentava num critério de mérito. Injusta ainda nos pressupostos e objectivos. Injusta nos métodos e resultados.

Nas crises testam-se valores. Nas crises testam-se lideranças. A democracia e a liberdade não podem falhar. Estamos todos no mesmo barco.

Deixamos para os ucranianos, como ânimo, a palavras do Cardeal D. Tolentino de Mendonça a 10/06/2020 ” a etimologia latina da palavra comunidade ( communitas). Associa dois termos, cumm e munus, ela explica que os membros de uma comunidade – e também de uma comunidade nacional – não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer. Estão ligados sim por um munus, isto é, por um comum dever, por uma tarefa partilhada. Que tarefa é essa? Qual é a primeira tarefa de uma comunidade? Cuidar da vida. Não há missão mais grandiosa, mais humilde, mais criativa ou mais actual.”

O luminoso

Deixou-nos, fisicamente, Paula Rego (1935-2022). Presente, cada vez mais presente, como acontece aos grandes.

A obra, porque grande e multifacetada vai crescer. Vai tornar-se polifónica e densificar-se após estudo e análise. Honre Portugal e o Mundo o seu legado: expondo, estudando e divulgando a sua obra.

Autónoma e livre, “sempre fiz o que quis fazer”, afirmou. Activista e solidária. Viveu no estrangeiro nunca esquecendo Portugal – as histórias portuguesas, as recorrentes tonalidades folclóricas nas vestimentas das suas personagens e, essencialmente, o sofrimento da mulher portuguesa – sempre reafirmado.

Simbolizado na grande obra de arte (8 telas), As Virgens, graciosamente oferecidas a Portugal, expostas na Capela da residência oficial do Presidente da República. Trabalhando a partir de fontes Bíblicas, mas também dos Evangelhos Apócrifos, nomeadamente da “Legenda Áurea, de Jacobus de Voragine e retratada a Virgem da Anunciação á Assunção. Humaniza a pessoa – também mãe de Cristo. O seu estilo retracta os rostos com dureza. A Natividade, a mais ousada das representações da Virgem, duro, humanizado, exala coragem/sofrimento, no fundo a essência da mulher. Nas palavras de D. Tolentino de Mendonça “ é esse o momento em que Deus se torna presente pelo mais humano dos milagres, que é a geração da vida”.

Visibilidade tardia como acontece aos maiores. Trabalhadora e profissional como só os portugueses emigrados o conseguem ser.

A este propósito, conta o filho que ao apresentar o esboço do seu trabalho, “ A Dança”, o marido – o pintor Victor Willing (1928-1988) – terá dito: “gosto, mas parece haver um predomínio exagerado do sexo feminino”. Paula Rego ponderando a sugestão iniciou a reformulação da obra. Neste entretanto o marido morreu. Escolheu o filho para modelo, que, dia após dia, vestindo a roupa do pai recentemente falecido – com que sofrimento! – , testemunhou o trabalho árduo, persistente e psicologicamente muito difícil e com um profissionalismo sem mácula levou até ao fim.

É uma das suas melhores obras. Por múltiplas razões, também por esta.

Palavras dos outros:

JN 11/06/22: Passaportes portugueses negociados a 10 mil euros

Paulo Baldaia, DN 13/06/22: Com socialismo e social-democracia assim, os liberais já ganharam.

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