O “Zé do Telhado” da Guarda andou mais de dois anos fugido da GNR

Continua fugido às autoridades o homem suspeito de ter matado duas pessoas em Aguiar da Beira, um deles um militar da GNR, e de ter ferido outras duas, no passado dia 11 de Outubro. O Ministério Público da Guarda emitiu um mandado de detenção europeu. «É um procedimento normal nestas situações. É habitual», disse à agência Lusa fonte da Polícia Judiciária, explicando que a emissão deste mandado, que aconteceu «há vários dias», compete ao Ministério Público que tutela o processo, neste caso o da Guarda.
Manuel “Palito”, Vítor Jorge (mais conhecido por “Mata-sete”), Fernando Cruz e os irmãos Cavaco fazem parte das lista de fugitivos mais conhecidos em Portugal. No concelho da Guarda também existe um homem que não facilitou a vida às autoridades. Nesta edição, o TB recorda o caso do fugitivo mais mediático desta região.
Rebelde, desde os tempos da sua adolescência, António Tapada Almeida, mais conhecido por “Russo”, alcunha que vem do tempo do pai, renunciou à pastorícia e dedicou-se aos pequenos furtos. Era visto pelos populares como sendo “dócil e simpático”. António Tapada Almeida, foi procurado durante dois anos pelas forças policiais, tendo conseguido escapar e esconder-se nos diversos refúgios, tipo “bunker”, que tinha na serra, entre Vila Cortez do Mondego e a Rapa. Por causa das artimanhas que foi encetando e dos esconderijos, era, com alguma ironia, comparado a “Zé do Telhado”, “Bin Laden” e ao “Rambo”, apesar da sua estatura média.
Em Julho de 2002, a GNR reforçou a busca para deter António Tapada Almeida, que era suspeito de ter disparado sobre uma viatura dos Bombeiros Voluntários da Guarda e de ser o autor de diversos roubos na região. Era ainda apontado como tendo sido o responsável pelo armadilhamento de um aparelho de rádio que tinha explodido em 2000 no quartel da GNR da Guarda, provocando ferimentos em três militares e danos materiais.
Apesar das várias incursões à quinta onde residia, os agentes da GNR não conseguiram detê-lo, sendo sempre recebidos a tiro. O “Russo” conseguia sempre escapar e esconder-se nos abrigos que tinha espalhados pela serra, nos quais foram encontrados 15 quilos de explosivos, seis espingardas de alta precisão e uma caçadeira de canos serrados. Foram ainda apreendidas dezenas de chaves de todas as qualidades, sprays paralisantes, e as famosas tábuas com pregos que eram colocadas em trilhos e que provocavam danos nos automóveis da GNR, quando estes procediam a investigações.
Sem oferecer qualquer resistência, António Tapada Almeida viria ser detido pela GNR de Celorico da Beira no dia 8 de Setembro de 2002, quando se encontrava no Centro de Saúde local a receber tratamento a vários ferimentos na perna. Por ironia do destino, os ferimentos foram provocados pelo rebentamento de explosivos que estavam colocados na sua motorizada: «Ao dar ao pedal aquilo explodiu», contou o próprio à SIC.
Numa entrevista concedida à jornalista Felícia Cabrita (na altura trabalhava para o Expresso) momentos antes de ser detido, António “Russo” tinha admitido entregar-se à Polícia Judiciária de Coimbra, justificando que estava cansado da vida de fugitivo e sentia saudades da família. Mas tal não viria a acontecer. Uma explosão na sua motorizada, quando deu ao pedal, fez com que as suas pretensões não se concretizassem. Por volta das oito da noite, António Tapada Almeida telefonou para o 112 a pedir auxílio e identificou-se, ter-se-á contudo recusado fornecer o número de telemóvel ao operador de serviço.
Seria então a jornalista a transportá-lo para o Centro de Saúde de Celorico da Beira. Depois de efectuar diversos contactos para as unidades de saúde do distrito, a GNR conseguiu saber onde tinha dado entrada António “Russo”, vindo então a ser detido. Sob custódia, chegou a ser transportado para o Hospital Sousa Martins, da Guarda, tendo depois recolhido ao Estabelecimento Prisional da Guarda.
Na altura, para além de ser suspeito de ter disparado sobre a viatura dos Bombeiros Voluntários da Guarda, e de ser o presumível autor de diversos roubos na região, era também apontado como responsável pelo armadilhamento de um aparelho de rádio que explodiu em 2000 no quartel da GNR da Guarda, provocando ferimentos em três militares e danos materiais.

Condenado a 11 anos
e seis meses de prisão
Acusado de 37 crimes, 11 dos quais por homicídio qualificado na forma tentada e 13 por detenção de armas ilegais e explosivos, António Tapada de Almeida, mais conhecido por “Taliban das Beiras”, ficou a saber no dia 11 de Fevereiro de 2003 a pena que o colectivo de juízes do Tribunal da Guarda entendeu aplicar-lhe pela prática dos diversos crimes que ficaram provados nas duas únicas audiências.
De pé, aparentando calma, António Tapada de Almeida ouviu o juíz-presidente do colectivo, Heitor Osório, dizer que era condenado a um cúmulo jurídico de 11 anos e seis meses de prisão pelos crimes de explosão, furto qualificado, ofensa à integridade física qualificada, explosão negligente, resistência e coacção a funcionário, ameaça, falsificação de documentos, condução de veículo sem habilitação legal e detenção de armas proibidas e de explosivos.
O colectivo de juízese entendeu que, entre os 37 crimes de que era acusado, não ficaram provados os 11 de homicídio qualificado na forma tentada, considerando que, no caso do rádio armadilhado e nos disparos contra os bombeiros e militares da GNR, não ficou provado que António Tapada tenha tido qualquer intenção de provocar a morte a ninguém, mas apenas o propósito de amedrontar e de impedir a sua captura. O tribunal considerou, por isso, que foram apenas praticados os crimes de ofensa à integridade física qualificada. Foi ainda absolvido de cinco crimes de detenção ilegal de armas, de um crime de explosão, de quatro crimes de detenção de explosivos, de um crime de falsificação de documentos e de dois crimes de condução ilegal.
Na opinião do colectivo de juízes, António Tapada, que «padece de uma perturbação anti-social da personalidade», «agiu sempre de forma deliberada, livre e consciente» para cometer os crimes e, por isso, entendeu condená-lo a uma pena de 11 anos e meio de prisão.

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