Olha lá, emprestas-me 850 M€?*

Vamos imaginar que ao oitavo mês de governação do XIX Governo Constitucional (21-06-2011 a 30-10-2015), o Ministro das Finanças à data, Vitor Gaspar, dava ordens para a realização de uma injecção de 850 milhões de euros numa entidade bancária intervencionada pelo Estado. Imaginemos ainda que, tal operação, alegadamente, tinha sido feita sem o conhecimento do primeiro-ministro da época, Pedro Passos Coelho. Não será muito difícil de conceber que, se este episódio se tivesse passado, muito provavelmente, estaríamos próximos de um cenário de “guerra civil política”, com a oposição a pedir a “cabeça dos intervenientes”, coadjuvados por uma comunicação social que escalpelizaria o assunto ao pormenor, 24 horas por dia, durante várias semanas.

No entanto, como a realidade é mais surpreendente do que a fantasia, o episódio descrito, veio mesmo a acontecer no oitavo mês de governação do XXII Governo Constitucional, liderado por António Costa, sem o alegado conhecimento deste. A displicência como tudo isto se passou, roça os limites do bizarro e passa um atestado de ignorância a todos os portugueses.

Para se entender um pouco melhor o enquadramento, em 2017, 75% do Novo Banco (ex. BES) foi vendido ao fundo americano Lone Star, mantendo o Estado português os restantes 25% através do Fundo de Resolução Bancário (entidade da esfera do Estado, gerida pelo Banco de Portugal). No contrato de venda, fixou-se um limite máximo da quantia que o Estado, através do Fundo de Resolução, poderia contribuir, sendo que, em cada Orçamento de Estado (OE), estaria definido o valor máximo dos empréstimos estatais para o respetivo ano. Para 2020, o OE previa um valor de 850 M€ para o Fundo de Resolução, o que significa que, toda a gente sabia qual a quantia a atribuir pelo Estado ao Novo Banco no presente ano.

A leviandade como o Primeiro Ministro tratou o assunto é algo chocante, pois estamos a falar de 0,4% do PIB nacional, mas a desvalorização que António Costa atribuiu ao assunto, mais pareceu a de um grupo de amigos que foram almoçar e um deles diz “alguém me empresta 8,5€ para pagar o almoço porque me esqueci da carteira?”.

Ao contrário do que a esmagadora maioria das pessoas comenta, a única pessoa que esteve bem foi Mário Centeno, pois limitou-se a cumprir o estipulado contratualmente e mandar transferir o montante em causa no último dia do prazo e como tal, Rui Rio não deveria ter pedido a sua demissão, mas sim, apontado o dedo ao líder do Governo, pois segundo o director do Jornal Público, Manuel Carvalho “Um primeiro-ministro que mostra no Parlamento desconhecer que o seu Governo tinha avançado com um empréstimo de 850 milhões de euros para acudir aos buracos de um banco não é uma situação normal ”.

Se dúvidas houvesse quanto ao conhecimento de António Costa, estas ficaram totalmente desfeitas no triste, absurdo e extemporâneo espectáculo ocorrido durante a visita à Auto-Europa, em que lançou a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa, criando por um lado, um facto político muito apetecível que desviou as atenções de um assunto que lhe estava a queimar as mãos e por outro, desfez o tabú do apoio do PS a essa mesma recandidatura.

O Presidente da República (que também sabia dos 850 M€), tendo consciência de que a extrema esquerda não votará nele e que uma cada vez maior parte do seu eleitorado tradicional (PSD e CDS) está desagradada com muitas das suas atitudes e posturas, aceita de bom grado este apoio já esperado e agora declarado, pois está a pouco mais de meio ano para 2022 e a vontade de ser reeleito com expressiva margem é cada vez maior!

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