Opinião: Impactos previsíveis

Apesar do deslumbramento inicial, rapidamente ficou patente que a COVID-19, doença provocada pelo vírus SARS-CoV-2, não é democrática, afetando as pessoas de maneiras muito diferentes. Para além disso, é ainda sentida e encarada de uma forma única por cada cidadão.

Esta assunção pode aplicar-se transversalmente à sociedade, em várias dicotomias banais como a de ter de sair de casa para trabalhar versus estar em teletrabalho ou deslocar-se em veículo próprio em contraponto com a utilização de transportes públicos.

Avançando agora de afirmações abstratas para a realidade concreta que se vive nesta altura, é provável que quando este artigo vir a luz do dia as medidas do segundo “grande” confinamento sejam já conhecidas.

À data de redação, todavia, flutuam apenas pela comunicação social e nas redes possíveis desenhos do mesmo, sendo uma das questões mais debatidas o (não) encerramento das escolas.

Ora, durante o confinamento original, em que muitos estivemos em casa, houve uma profundíssima alteração do nosso funcionamento enquanto sociedade, que permitiu chegar já a algumas conclusões e dar pistas para futuras decisões.

Mesmo antes da pandemia, Portugal apresentava, segundo a OCDE, um forte imobilismo social, sendo necessárias em média cinco gerações para que os descendentes de uma família de baixos rendimentos atinjam rendimentos médios no nosso país.1

Neste mesmo relatório, a primeira recomendação para diminuir este fosso tem por base a implementação de medidas educativas que suportem a mobilidade social e evitem a desigualdade de oportunidades a longo prazo. Uma delas é o acesso precoce e para todos a uma educação de elevada qualidade.

Ora, um confinamento prolongado como o que sucedeu em 2020, em que durante semanas os alunos não foram às escolas, tem um impacto brutal em termos de aprendizagem e nas premissas anteriores, ficando muito mais ao critério e capacidade de cada família a formação das crianças e dos jovens.

Efetivamente, segundo um estudo de uma Fundação do Reino Unido, o encerramento das escolas pode levar a uma regressão dos esforços feitos para diminuir o fosso na última década, sendo que medidas sustentadas serão necessárias para mitigar o efeito deste encerramento junto dos alunos mais desfavorecidos.2

Vivemos atualmente uma situação de enorme pressão e gravidade no que à pandemia diz respeito. Não sendo especialista em Saúde Pública e não estando na posse de todos os dados epidemiológicos, não tenho posição sobre se as escolas, neste segundo confinamento mais musculado, deverão manter-se abertas ou encerradas.

No entanto, parece-me óbvio que esta medida trará necessariamente consequências impactantes e, como tal, é imperioso que ações para mitigar as suas consequências comecem desde já a ser equacionadas e eficazmente implementadas, nomeadamente planos de recuperação, acesso a meios e equipamentos digitais de qualidade para todos e compensação posterior de conteúdos.

Por outro lado, caso se opte por manter as escolas abertas, não nos podemos olvidar também dos professores e demais funcionários, bem como dos riscos que correm diariamente. E, sabendo ainda do envelhecimento dos mesmos3, fará sentido refletir sobre o seu lugar na hierarquia da vacinação.

Esta pandemia, apesar de ter surgido de forma imprevisível, será ultrapassada. Deixará, no entanto, marcas a longo prazo. Uma delas é mais um empurrão no elevador social, que estava já a precisar de manutenção.

1 OECD (2018), A Broken Social Elevator? How to Promote Social Mobility, OECD Publishing, Paris. http://dx.doi.org/10.1787/9789264301085-en ISBN 978-92-64-30

2 https://educationendowmentfoundation.org.uk/public/files/REA_-_Impact_of_school_closures_on_the_attainment_gap_summary.pdf consultado a 11 de janeiro de 2021

3 Conselho Nacional de Educação (2020), Estado da Educação 2019, Grafisol, ISBN 978-989-8841-32-2

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