Os Mortos e os Vivos

Há uns anos, visitando uma aldeia, uma senhora falou-me da pesarosa da solidão que vivia, pois, toda a gente que tinha conhecido estava ausente. Falando mais um pouco acabou por concluir que estavam quase todos no cemitério que estava bem perto. O mistério do seu desaparecimento só se mantinha em relação a alguns que tinham emigrado e não tinham regressado em definitivo. Tinham deixado casas e terrenos que alguns vizinhos diziam agora ser deles por usucapião. Nem sequer se sabia de quaisquer herdeiros e muito menos de filhos e netos. Tinham desistido mesmo do seu canto no cemitério.

A vida era bem difícil nos inícios da grande debandada pois eram obrigados a trabalhar de sol a sol, recebendo paga escassa e uma refeição desvigorosa. Eram por isso frágeis e morriam de fome e bem cedo pois nem sequer tinham acesso a cuidados de saúde. E, tendo notícia de que havia um país onde havia segurança social, férias pagas e outras “mordomias”, partiram a salto, deixando na aldeia filhos e mulher, esperando juntar a família passado algum tempo. E assim alguma gente partiu sem vontade de voltar. Mas, quase todos queriam voltar logo, mas o país nunca teve a dinâmica que permitisse o seu regresso através de uma melhoria de vida sustentada numa política democrática, que possibilitasse o desenvolvimento social e económico necessário.

Pelo contrário assistimos a uma política que obrigou à continuidade dos baixos salários e a um crescendo de subidas de impostos que, sabemos, se destina a salvar bancos que banqueiros e alguns políticos, que assumiram este papel degradaram de uma forma obscena e sem vergonha, pedindo no final que o Estado fizesse o seu resgate, e sempre com custos que são endossados para os contribuintes, ou seja, para o Povo.

Os governantes assumem neste processo o papel de justificadores de políticas abstrusas que, continuadamente, prejudicam os cidadãos no acesso entre outras coisas à Educação, à Saúde e à Segurança Social, dizendo sempre que tudo é necessário para que melhores dias possam vir. É nisso que um povo crédulo acredita ou é obrigado a acreditar porque muitos crédulos dizem que é mesmo assim. Continua por isso a debandada de muita gente qualificada que, se quiser viver aqui, terá de dar como perdida a oportunidade de ter um emprego qualificado de acordo com a formação que teve. Muitos terão só um baixo salário como resultado de se quererem manter na sua terra.

De facto, é o que uma Democracia manipulada impõe a todos, pois vota-se sem garantia de que as promessas sejam cumpridas, defraudando os legítimos anseios do povo que trabalha todos os dias por um salário escasso, já que governantes não cumprem com lealdade as funções que lhes foram confiadas e que ganharam em eleições muito participadas, sabendo quase todos desde o início que nenhuma promessa seria cumprida.

Entretanto, todos os anos há um dia de Todos os Santos e um Dia dos Fiéis Defuntos, enchendo os comboios de gente que se desloca à sua aldeia, mais uns muitos que se deslocam de carro. Infelizmente, muitos mais já não se deslocam para os cemitérios das aldeias por já terem morrido e outros por estarem velhos e desgastados.

Tudo faz antever o fim de muitas práticas funerárias ancestrais, pois já não há gente que cuide das campas dos pais e amorosamente as enfeitem com flores, que só por agora, prevê-se, se tornam no grande negócio que anima os que as produzem.

Muitos há que começam a não ter esperança de que os seus filhos possam cuidar das suas campas e optem com alguma racionalidade em espalhar as suas cinzas ao vento.

É o resultado das políticas sem nexo que despovoam o Interior que persiste em se manter vivo e habitado por mais algum tempo.

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