Os mundos de dentro

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Acordou-nos o espanto a notícia do término próprio da vida de uma figura pública que emanava felicidade. Percebemos, com este fim abrupto, o humanismo da exposição pública, que tantas vezes tendemos a esquecer. A vida, linha frágil e não linear, pode ser tão pesada ao ponto de não a conseguirmos carregar. Por muitas mãos que se ergam por nós, nenhuma força é tão forte como a nossa emoção. E podem vir palavras, gestos, familiares e amigos a referirem-nos o quão importante e indispensável é a nossa vida na vida deles. Sorrimos, camuflando a dor insuportável que trazemos por dentro. Apontamos soluções, caminhos, certezas – para os outros. Abraçamos como se fossemos casa, estrutura inabalável que alberga todos quantos cabem, enquanto nos tolhemos na periferia. Projetamos toda a luz para fora de nós, apagando, por dentro, a vida.

A saúde mental é uma questão muito séria e demasiado desconsiderada. A tristeza e o desgosto profundo consomem a alma até já não haver alma. O sofrimento emocional não se consegue descrever, sendo um estripamento doloroso que feria suscetibilidades se fosse visível, encontrando-se, por isso, escondido nas profundezas do ser que sofre. O conflito interno é a nossa maior batalha contra nós mesmos. Não há um antídoto eficaz, a cura está no portador da dor. A ferida não se vê, não temos connosco o dom de produzir componentes milagrosas para se fazer luz e continua a dor. Dói tanto que sufoca, que extingue o oxigénio, a esperança, o outro. O sofrimento torna-se insuportável e não se avista solução sem ser o fim. Acabar com tudo o que faz doer, com tudo o que grita, com tudo o que mata. Matar a vida.

Não é loucura, é dor. Não é egoísmo, é coragem. Uma coragem imensa de radicalizar o sofrimento e deixar todos os que amamos. De não preocupar mais os que nos são queridos, de não acabar com a infedelidade do nosso sorriso.

Dizem que só não há solução para a morte, mas a morte não pode ser solução.

A saúde mental deve ser cuidada, tratada diariamente, para se evitar a doença.

É de doença que falamos. Doença que provoca perturbações mentais, ansiedade, tristeza profunda, sofrimento psíquico. Estes fatores levam, muitas vezes, à concretização da expressão do desespero mental, o suicídio.

Não queremos perder mais vidas pela dor da vida. É urgente pedir ajuda, encarar o desespero como doença e tratá-la com ajuda de profissionais.

Os tempos são difíceis e propícios a diferentes perturbações. Falemos dos nossos problemas, encaremo-los como tal e procuremos soluções. Se não tivermos forças, expressemos essa inação porque há sempre alguém para nos salvar.

Salvemo-nos!

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