Prevalência

Na semana passada estávamos todos à espera de novidades vindas de quem comanda as reações coletivas ao decurso da marcha da pandemia, aqui e também a nível global, pois esta parece afetar cada país de forma muito semelhante. Contudo, muitos parecem culpar só quem celebrou de forma moderada o Natal, sem em nenhum caso culpabilizar quem teve comportamentos irresponsáveis durante o fim de ano e outros dias, provocando assim disfunções sociais explicativas da brutalidade dos números de contágios e mortes.

Estávamos até então todos à espera da vacina que, tanto, nos tarda, e sem termos dado conta das insuficiências passadas e presentes da gestão coletiva da sua produção e distribuição. Esse é um problema mundial como intuo a partir de escassas informações que recebo no local onde me confino.

Tenho para explicar tudo comigo um livro de 1899 de Manuel Penteado: A Peste, publicado em Lisboa, no Porto e no Rio de Janeiro, na Biblioteca do Povo e das Escolas e que logo na primeira página fala assim da peste que assolou nesse ano o Porto:

“Se o mal se não evitou e não se cortou a tempo na atual epidemia do Porto foi porque práticas ronceiras da nossa terra, juntas à brandura dos nossos costumes, se opuseram às medidas sérias e seguras que se impunham e foram aconselhadas por profissionais.”

Agora, havendo mais de 120 anos de Ciência produzida e muitas páginas sábias escritas, este livro está desaparecido da memória coletiva se ela for a memória do Google. Parece, que só eu o livrei de ir pelo cano de esgoto, em que tanto saber desapareceu para não incomodar quem o quer esquecido. Isso explica a razão de ter havido tão pouco investimento em serviços nacionais de saúde e, ainda, tanta valorização da manipulação sistemática das consciências, que faz eleger Trumps e Bolsonaros, como se isso fosse normal, bom e até ótimo para a Humanidade. Também não nos quiseram esclarecer que o termo prevalência, usado na epidemiologia significa a proporção de casos existentes numa determinada população e num determinado momento temporal e, ainda, que devemos ligá-lo ao conceito de velocidade de contágio. Anestesiaram-nos só.

Os homens da publicidade “inventaram” antes que podiam vender um presidente como se fosse um qualquer sabonete, mas trouxeram-nos até um inferno de pesadelos que, infelizmente, demasiados acham ser o melhor dos mundos, impondo-o democraticamente a todos os outros. Acontece até antes que a desfasagem entre diversos níveis de decisão nos coloque perante uma ordem desunida nesta tropa fandanga, que marcha sempre como lhe aprouver, sentindo-se à vontade para impor os seus caprichos a todo o mundo que com ele viva.

Infelizmente, não disseram como nos podíamos livrar facilmente destes sabonetes venenosos. Só inventaram mil formas de mentir e muitas mais de anestesia de consciências inquietas. Dificultaram só a tomada de opções políticas que permitissem a sobrevivência dos mais frágeis. Foram só alterando como se fosse aceitável uma qualquer prioridade sempre escassamente justificada da escolha de quem vai ser vacinado primeiro. Outros inventaram que estava tudo sobre controlo e que a vacina era segura e que a logística ia funcionar muito bem a partir de um lugar secreto. Mas, logo soubemos de um acidente que esperamos não ser grave.

Disseram sempre que tudo ia correr…

Contudo todos fomos sentindo de novo a preponderância continuada das “práticas ronceiras da nossa terra, juntas à brandura dos nossos costumes, se opuseram às medidas sérias e seguras que se impunham e foram aconselhadas por profissionais”

Espero agora só que o mundo pule e avance e ninguém repita estas palavras que eu pedi emprestadas a Manuel Penteado agora infelizmente esquecido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

O website do Terras da Beira utiliza cookies para melhorar e personalizar a sua experiência de navegação. Ao continuar a navegar está a consentir a utilização de cookies Mais informação

The cookie settings on this website are set to "allow cookies" to give you the best browsing experience possible. If you continue to use this website without changing your cookie settings or you click "Accept" below then you are consenting to this.

Close