Quem vai morar aqui?

Segundo a PORDATA, uma iniciativa da Fundação Francisco Manuel dos Santos onde se podem consultar inúmeras estatísticas e informações sobre Portugal, os seus municípios e a Europa, houve, entre 2010 e 1018, uma diminuição de quase 290 mil habitantes no nosso país. No mesmo período, o saldo da população residente para o concelho da Guarda é negativo em 3453 habitantes.1

Neste portal, podemos ainda ver que, em 2010, o concelho da Guarda tinha perto de 144 idosos (definidos como indivíduos com 65 ou mais anos) para cada 100 jovens entre os 0 e os 14 anos. Em 2019, este valor era de quase 199 idosos. E é ainda assim o concelho com o índice de envelhecimento mais baixo de todo o distrito. A nível nacional, a evolução foi de aproximadamente 122 (2010) para cerca de 161 idosos (2019) por 100 jovens.2
Procurando perscrutar o futuro, as Estatísticas Demográficas 2019 do Instituto Nacional de Estatística, autoridade estatística central do nosso país, preveem uma diminuição da população em Portugal, que será de 8,2 milhões de habitantes em 2080 (atualmente 10,3 milhões) com um progressivo envelhecimento da mesma, apontando para cerca de 300 idosos por cada 100 jovens no mesmo ano. Mesmo a nível da União Europeia (e com dados ainda para 28 países), Portugal era, em 2018, simultaneamente o país com a quarta menor proporção de jovens e quarta maior proporção de idosos. 3

Em direção contrária, e de acordo com o documento World Population Prospects 2019: Highlightsda Organização das Nações Unidas, a população mundial continuará a crescer, ainda que ao ritmo mais lento desde 1950.4

Portugal vive então o paradoxo de, num mundo em que a população continua a aumentar, caminhar para um declínio populacional e um envelhecimento acentuado. E a nossa região não só acompanha a tendência nacional como a situação é ainda mais pungente. Percebe-se assim que a realidade é preocupante e o futuro não parece auspicioso.

A problemática é complexa, com múltiplos fatores em equação e diversas nuances. Não sei como a resolver, nem tenho resposta para a mesma. Mas aflige-me. E, por isso, propus-me a alguma reflexão (vale o que vale…) que, ao ser escrita por alguém não especialista em demografia ou políticas do território, terá certamente falhas.

Primeiramente, poderia ser interessante perceber quantos jovens adultos (dos 18 aos 30 anos, por exemplo) oriundos da Beira Interior e apesar de aqui residentes para as estatísticas, estudam ou vivem noutros pontos do país, onde passam a maior parte do tempo. Nesta sequência, e ainda mais importante, poder-se-ia perceber se equacionam regressar em definitivo (e mediante que condições) para a região onde nasceram e/ou cresceram, bem como os vetores de decisão que sustentam a respetiva opção.

Noutro âmbito, observou-se nos últimos meses uma súbita e forçada mudança dos padrões de trabalho, motivada pela pandemia. Apesar de ser prematuro extrair muitas conclusões em relação aos impactos a longo prazo, é possível que algumas permaneçam no futuro. Uma dessas alterações é a implementação generalizada do trabalho à distância, para as atividades em que isso é possível. Neste sentido, regiões que viram muitos dos seus cidadãos partir para outras paragens, fruto dos mais variados desafios profissionais, podem, dada a ligação emocional e se criadas condições favoráveis, ver os seus regressar ou, pelo menos, ter estadias mais prolongadas. Apesar de mais ambicioso, não será também este período de excepção uma oportunidade para atrair novas gentes, aliando as mudanças impostas pela pandemia a uma estratégia que vise a divulgação de pequenos grandes detalhes do dia a dia que podem fazer a diferença? Numa análise espontânea, breve e não sistemática, surgiram-me vários cartões de visita (ou melhor, de permanência), nomeadamente a fluidez do trânsito, a educação de qualidade, a segurança, o custo da habitação e a qualidade do ar.

Finalmente, e num prisma completamente diferente, se em Portugal a população tende a diminuir, em muitos outros locais está a aumentar. Na verdade, nos últimos nove anos, 2019 foi o primeiro em que houve crescimento da população residente em Portugal. Este saldo positivo deveu-se não ao balanço entre nascimentos e óbitos, que continuou negativo, mas ao saldo migratório positivo.3 E, na nossa região, temos o exemplo concreto e recente do projeto LAR (http://www.larproject.com), que promoveu já a instalação de duas famílias de refugiados na aldeia da Ima, no concelho da Guarda.

Em suma, creio que o problema é evidente. As soluções, apesar de nenhuma emergir com cristalino desassombro, serão muitas. E quantos mais pensarem, melhores ideias surgirão. É um exercício – de cidadania – que qualquer um pode fazer.

Numa última nota, do texto e deste ano, desejo a todos os corajosos que chegaram a este ponto do artigo um 2021 melhor que o ano que finda, o que será certamente mais fácil se encarado com um sorriso.

1 https://www.pordata.pt/Municipios/Quadro+Resumo/Guarda-252003, consultado a 28/12/2020

2 https://www.pordata.pt/DB/Municipios/Ambiente+de+Consulta/Tabela, consultado a 28/12/2020

3 Instituto Nacional de Estatística (2019), Estatísticas Demográficas 2019

4 United Nations, Department of Economic and Social A airs, Population Division (2019). World Population Prospects 2019: Highlights (ST/ESA/SER.A/423).

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