Reflexões de agosto

Há um mês escrevi sobre imigração no nosso país. Esta semana, em pleno mês de agosto e em virtude das movimentações sazonais que este origina, escrevo sobre emigração a partir do nosso país.

O mês de agosto, por Portugal no geral e pelas nossas terras beirãs em particular, é momento de regressos e reencontros. Entre amigos e familiares dispersos por todo o país, mas também entre muitos que partiram para outros países em busca de um futuro melhor.

Sérgio Sousa Pinto, num excelente artigo publicado no Expresso, edição de 19 de agosto1 e intitulado “Pela estrada fora”, chega mesmo a afirmar que a insólita entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa numa viagem de carro para a CNN Portugal seria muito mais proveitosa se fosse com um emigrante. Nas suas palavras: “A viagem a Viseu com algum interesse é a que leve um emigrante ao volante.”.

O perfil de emigrante português tem-se tornado mais heterogéneo nos últimos anos. Qualquer pessoa, na minha geração, tem amigos altamente qualificados que trabalham no estrangeiro. Também em conversa, muitos cogitam pelo menos essa hipótese, sobretudo pelas condições oferecidas – do trabalho em si, mas também em termos remuneratórios.

O Observatório da Emigração, que se apresenta como uma estrutura técnica e de investigação independente integrada no Centro de Investigação e Estudos de Sociologia (CIES-IUL) do ISCTE-IUL, tem imensa informação e trabalhos sobre este tema, publicando anualmente um Relatório Estatístico sobre a emigração portuguesa.

Contactei com o seu trabalho a partir de um tweet e o relatório de 20212 tem dados capazes de solevar as sobrancelhas, dilatar as pupilas e abrir ligeiramente a boca – a mímica facial típica de um estado de admiração ou espanto.

Os emigrantes portugueses representavam, em 2019, 1% do número total mundial, uma percentagem sete (!!) vezes superior ao peso da população de Portugal no globo (0,13%). Em números absolutos, existem 2,6 milhões de emigrantes portugueses (corresponde, em Portugal, a uma taxa de emigração de 25%) num universo total mundial de 247 milhões de emigrantes. Portugal é o país da União Europeia com mais emigrantes em proporção da população residente e é o oitavo da lista em todo o mundo – à nossa frente temos apenas Palestina, Porto Rico, Bósnia, Síria, Albânia, Arménia, Macedónia.

Ainda que facilmente observável no dia-a-dia, o relatório confirma que existem populações portuguesas de grande dimensão na Europa (desde os fluxos de emigração iniciados nos anos 60) e no continente americano – Brasil, Canadá e EUA – fluxos estes com início nos últimos 25 anos do século XX.

Em suma, Portugal é um país com uma taxa de emigração elevadíssima, que materializa a incapacidade de oferecer um projeto de vida para muitos dos seus. E, atualmente, essa questão coloca-se para os menos qualificados, mas também para os mais qualificados.

Num país em declínio demográfico e que não consegue fixar os seus mais jovens e talentosos, que futuro podemos perscrutar?

E o Interior, que neste caso é ainda mais – e para pior – Portugal, ainda se consegue sequer perscrutar alguma coisa?

Entretanto, cá continuaremos a dizer, em agosto e a cada vez mais amigos e conhecidos, “até para o ano”.

1 https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2599/html/primeiro-caderno/opiniao/pela-estrada-fora

2 http://observatorioemigracao.pt/np4/file/8218/OEm_Emigra__oPortuguesa2021.pdf

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