Reflexões sobre os modelos de campanha eleitoral*

A malfadada pandemia que actualmente estamos a viver, veio alterar radicalmente o nosso quotidiano, obrigando-nos, entre muitas outras coisas, a repensar a forma de conviver socialmente, o que era algo inconcebível até há poucos meses atrás. As mais singelas e pequenas acções do dia-a-dia, como por exemplo, o simples acto de ir tomar café, revestem-se hoje de um conjunto de preocupações de segurança sanitária que limitam a nossa liberdade e cerceiam a forma como lidamos com as demais pessoas. É o preço a pagar para se tentar travar a propagação do coronavírus, pelo menos, até à disponibilização massificada da respetiva vacina, que no melhor e mais animador dos cenários, apenas se verificará no final de 2020, inícios de 2021.

No entanto, manda o princípio da prudência que tenhamos alguma cautela com estas datas e nos preparemos mentalmente para que esse momento possa derrapar no tempo, até porque, os laboratórios que se encontram numa fase mais avançada da investigação estão ainda a realizar testes clínicos.

Eleitoralmente falando, o ano de 2021 vai ter dois grandes momentos, designadamente, as eleições presidenciais em Janeiro e as autárquicas em Setembro ou Outubro. No entanto, os modelos de campanha que até agora têm sido utilizados e estão bem enraizados na cultura política portuguesa, terão de ser revistos, adaptados e repensados em função das restrições decorrentes da já citada pandemia e uma vez que a campanha presidencial precede em cerca de 8 meses a autárquica, aquela poderá ser um bom tubo de ensaio para o novo modelo a adoptar.

Contudo, no terreno, estamos a falar de eleições com abordagens completamente distintas. Enquanto que a campanha presidencial tem um cunho nacional, em que, por norma, a mensagem dos candidatos é transversal ao país, sendo praticamente homogénea do Minho ao Algarve, no caso das autárquicas, há um enfoque completamente diferente nas especificidades de cada território. Cada freguesia ou cada concelho possuem necessidades distintas, com propostas diferentes e com relações de proximidade candidatos/eleitores em níveis muitíssimo mais elevados.

Daí que, o modelo tradicional da campanha autárquica, muito alicerçado em eventos de proximidade, como o porta-a-porta, a arruada e o comício (só para citar os mais relevantes) tenham de ser reconfigurados à luz dos critérios e normas de distanciamento social que, provavelmente, ainda imperarão nessa altura. Todos esses momentos políticos que eram dados como adquiridos em qualquer eleição passada, sofrerão alterações ao nível da participação cívica, perspectivando-se uma utilização massiva das redes sociais e outras plataformas de comunicação digital, substituindo-se o contacto físico pela convivência virtual. Em última análise, esta alteração pode deixar grupos populacionais à margem da mensagem eleitoral ou com uma informação distorcida da mesma. Refiro-me concretamente às populações mais idosas dos territórios do interior, com uma enorme taxa de iliteracia digital e sem acesso directo aos meios informáticos, que estavam habituadas ao contacto com o candidato e eram participantes assíduas das sessões de esclarecimento.

É portanto imprescindível que se encarem os circunstancialismos do momento, transformando a ameaça das restrições sociais numa oportunidade de desenhar novos modelos de campanha eleitoral, mais inovadores e sofisticados, sem contudo perderem o cunho de proximidade que deles se espera.

*O autor escreve ao abrigo dos antigos critérios ortográficos.

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