Sacerdote defende que conceito de paróquia deve ser repensado

Tiago Freitas admite não ser «fácil» mas defende ser «neces-sária» uma mudança na forma como a Igreja Católica portuguesa se organiza. O conceito de paróquia, cujo actual modelo considera «desade-quado», é uma das questões a que dedicou a sua tese de doutora-mento, na qual obteve recentemente clas-sificação máxima na Pontifícia Universidade Late-ranse, em Roma.
Numa conversa «infor-mal» antes da defesa da tese, o bispo da Guarda mostrou «interesse» em ouvir as propostas deste sacerdote.

Gabriela Marujo
gabmarujo.terrasdabeira@gmpress.pt

Adaptar a paróquia à actual realidade social e cultural é um dos grandes desafios que Tiago Freitas coloca à Igreja Católica Portuguesa. O sacerdote, chefe do gabinete episcopal da arquidiocese de Braga e director do Auditório Vita, considera que o actual modelo está «desadequado» e defende a necessidade de mudança.
«O modelo tradicional que nós temos de paróquia não é que seja mau, por assim dizer, mas foi pensado para um tipo de sociedade que não existe mais. Isto é, uma sociedade estática onde existia praticamente um padre para uma só paróquia, com um conjunto de pessoas onde nem sequer existia este fenómeno da mobilidade e da comunicação. Portanto, para o seu tempo era um modelo adequado. Mas atendendo a estas mudanças culturais, principalmente com o advento da mobilidade, da mudança das pessoas, com a falta de sacerdotes, que hoje em dia têm 3, 4, e até mais, paróquias, aos poucos vamos sentindo que deixou de o ser», justifica.
Daí «a necessidade de procurarmos novos modelos de paróquia, não existe apenas um», complementa Tiago Freitas, cuja tese de doutoramento, intitulada “Colégio de Paróquias – um proto-modelo crítico para a paróquia da Europa Ocidental em tempo de mobilidade”, obteve recentemente classificação máxima na Pontifícia Universi-dade Lateranse, em Roma.
«Creio que a grande mudança tem a ver com mentalidades, com um saudável apego às raízes e à história», considera o sacerdote, que admite que o processo de mudança será mais difícil nas dioceses com o maior número de paróquias.
A título de exemplo, refere o processo de agregação das juntas de freguesia, onde «houve também dificuldades», «mas ao mesmo tempo já foi um sinal e um primeiro passo para mostrar que alguma coisa tem efectivamente de mudar».
«No caso de Braga, por exemplo, ou outros que também têm um número considerável de sacerdotes, e alguns que já estão numa paróquia há 20, 30, 40 anos, não se pode simplesmente remover só por uma decisão unilateral. Todo o processo será sempre um processo calmo e lento, não pode ser feito para um ano ou dois mas sim para 10, 15 anos, onde inicialmente se faz um desenho daquilo que poderão ser o tal colégio de paróquias, ou unidades pastorais nalguns casos, e progressivamente ir encontrando modos de formar essas unidades», explica. «É preciso respeitar as tradições, a vontade das pessoas e sobretudo ouvir as bases», defende Tiago Freitas, adiantando que «já estamos a iniciar esse processo» na Diocese de Braga, que tem 550 paróquias.
A segunda diocese com o maior número de paróquias é a do Porto, com 477, seguida da Guarda, com 361 e Bragança-Miranda, com 325. Em termos nacionais, existem 4.377 paróquias divididas pelas 20 dioceses.
Tiago Freitas revela ter tido «uma conversa informal, casual com o bispo da Guarda [D. Manuel Felício]», numa altura em que «carecia ainda a defesa formal da tese e a publicação em texto». «Criou-se essa circunstâncias de falarmos e no fundo introduzir aquela que é a minha tese. O bispo mostrou interesse, mas obviamente uma coisa é falar a título informal, outra coisa é depois ter o texto para que, quer os bispos quer os sacerdotes, possam ler e a partir daí conversarmos», afirma o sacerdote, adiantando que irá fazer «um percurso por algumas dioceses para apresentar a minha proposta».
«Poderíamos resolver a coisa a título administrativo. Isto é, vai ser assim e dentro de um ano ou dois vamos mudar tudo. Mas parece-nos mais saudável ouvir primeiro as bases, ou seja, as paróquias, paroquianos, os vários conselhos, para ouvirmos as suas opiniões e à posteriori fazer essa mudança», conclui Tiago Freitas.

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