O teatro no distrito em discussão na Guarda

Numa década, o número de grupos de teatro existentes no distrito da Guarda ficou reduzido a pouco mais dos dedos de uma mão. O teatro perdeu a importância social de outros tempos e o despovoamento está entre os motivos da ausência da dinâmica necessária à sobrevivência dos grupos.
O tema vai ser debatido na próxima Terça-feira na Guarda.
Gabriela Marujo
gabmarujo.terrasdabeira@gmpress.pt

Os cada vez menos grupos de teatro do distrito da Guarda com actividade regular sentem praticamente as mesmas dificuldades de há uma década.
«Há falta, em primeiro lugar, de pessoas habilitadas», caracteriza Joaquim Igreja, que a Biblioteca Municipal Eduardo Lourenço, na Guarda, convidou para moderar uma tertúlia sobre a situação do teatro no distrito, no âmbito da iniciativa Guarda – a Memória, a ter lugar às 18h00 da próxima Terça-feira, Dia Mundial do Teatro.
Confirmaram já a sua presença Álvaro Guerreiro, Albino Bárbara, Victor Amaral, Américo Rodrigues, Honorato Esteves, Daniel Rocha (CalaFrio – Guarda), Carlos Bernardo (Escola Velha – Gouveia), Carla Morgado (Aquilo Teatro – Guarda) e um representante dos Gambozinos e Peobardos (Vela – Guarda).
«É necessário que à frente de cada grupo haja uma pessoa com uma personalidade forte e com muita formação sobre teatro e de preferência até envolvido como actor ou como encenador para puxar pelo resto do grupo. Portanto, faltam líderes teatrais, por assim dizer», fundamenta o antigo coordenador cultural da delegação da Guarda do Inatel.
Por outro lado, «relativamente ao público do teatro não é fácil cativar a juventude para uma área que não está na moda. Esse lado das pessoas é fundamental acrescido do facto de que cada vez mais as novas tecnologias roubam tempo para esse trabalho de teatro».
Existem ainda a questão dos grupos que se constituem quererem ser, «em geral, grupos que tenham algumas bases, e em geral pretendem dar formação. Mas às vezes os jovens não têm paciência para esperar pelo seu momento, não têm paciência para suportar a ideia que são necessárias muitas horas até se chegar a um mínimo que seja possível apresentar ao público».
Dificuldades idênticas às sentidas em Março de 2007, altura em que os grupos de teatro com actividade regular foram convocados pelo Inatel a pronunciar-se sobre o ponto da situação e da necessidade de formação para encenadores/animadores.
Esta viria a acontecer mas não produziu o efeito desejado. «Temos a ideia de que não terá sido suficiente. O alfobre não foi suficientemente bem plantado ou a terra não era suficientemente boa, e depois muitas vezes basta que uma ou duas pessoas saiam para se partir um grupo, e é muito fácil actualmente um grupo perder solidez de um momento para o outro», justifica Joaquim Igreja, que presidiu ao encontro, no qual participaram «para aí 15 pessoas».

Dezenas de grupos desistiram
Numa década, mais de uma dezena de grupos desistiram ou deixaram de ter actividade regular e apenas mais um se juntou aos resistentes Aquilo Teatro (1982), Guardiões da Lua (Quarta-feira – Sabugal – 1994), Escola Velha – Teatro de Gouveia (1997), Teatro do Imaginário (Manigoto – Pinhel – 2003) e Gambozinos e Peobardos (2005): CalaFrio (2014).
«É pouquíssimo, mas é um distrito muito despovoado, com localidades muito pequenas e com grande índice de mobilidade actualmente», considera Joaquim Igreja, que compara esta com a actual situação das bandas filarmónicas. «Morreram muitas porque as pessoas saem, vão para outros sítios». «Por outro lado há o desinteresse por uma arte que actualmente aos olhos dos jovens não é atraente, apesar de haver cada vez mais cruzamentos com a tecnologia», acrescenta, sublinhando que «fora os grupos profissionais que tenham algum impacto, é difícil numa situação normal atrair o público jovem».
Joaquim Igreja destaca a importância do Julgamento e Morte do Galo, que a Câmara da Guarda promove desde 2001, nomeadamente o «desfile comunitário» e a representação final» do espectáculo, na dinâmica dos grupos locais, lamentando que a iniciativa tenha tomado outro rumo. «Até certo ponto era sobretudo um espectáculo teatral, actualmente já não. Transformaram isto numa coisa de vídeo, numas brincadeiras, já no ano passado foi uma imitação do festival da canção, meio chocho na minha opinião, e portanto se calhar esse tempo também acabou. Mas foi algo que deu alguma dinâmica aos grupos», afirma.
«Dá ideia que para estas representações comunitárias há ainda força e dinâmica. Para grupos mais pequenos em que haja necessidade de um patamar um pouco mais elevado de qualidade é difícil atrair as pessoas para isso porque aí exige-se muito tempo e uma actividade contínua de qualidade de formação e uma evolução que é esperada a cada passo», evidencia.
E conclui que «actualmente já só se tolera que as coisas não tenham nível nenhum se forem os nossos filhos na creche. Aí somos tolerantes e batemos sempre palmas. Agora, trazer cá para fora um grupo sem preparação, sem qualquer formação, actualmente parece-me que é um suicídio».

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