Um dia feliz

Depois dos tempestuosos dias que o precederam, este nasceu sereno e calmo. E foi um dia feliz. Continua a existir uma pandemia. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras. Portugal lidera as estatísticas internacionais onde ninguém quer estar no topo. Mesmo assim foi um dia feliz. Este dia poder-se-ia ainda ter realizado algum tempo mais tarde. E mesmo assim foi um dia feliz.

A um ritmo mais ou menos previsível, seguindo os tempos da nossa Democracia, temos estes dias felizes. Dias revestidos de uma solenidade que paira no ar e que é para todos, ainda que alguns prefiram deles abdicar. Dias que são uma encruzilhada temporal, em que se confronta o passado e a partir dele se projeta o futuro, individual e coletivo.

Ainda assim, estas eleições terão sido as mais atípicas dos últimos tempos e nem todas necessariamente pelo momento de excepção que vivemos. Contou com uma experiência surreal, kafkiana até, quando um proto-candidato administrativamente rejeitado constou do boletim de voto. Ironia das ironias, ditou o sorteio que seria o primeiro a figurar em todas as folhas A4 impressas para o efeito.

Mas, avançando destas insignificâncias e indo além da previsível vitória do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, dois aspetos merecem profunda reflexão e, sobretudo, ação.

O primeiro prende-se com a inoperância demonstrada pelo Estado em garantir o direito de voto a todos. Milhares de portugueses infetados pelo vírus SARS-CoV-2 ou em isolamento profilático não puderam escolher o seu preferido para o mais alto cargo da Nação. Para além disso, os relatos de portugueses na diáspora, cujo voto apenas foi permitido presencialmente, devem entristecer-nos. Se seria já muito difícil para muitos destes compatriotas votar em condições normais, no auge de uma pandemia tornou-se praticamente impossível. Não admira, então, que tenham votado apenas 1,87% dos eleitores no estrangeiro1. São aproximadamente 27 mil votos num universo próximo das 1,5 milhões de pessoas.

O segundo é a abstenção, em termos globais. Apesar de se antever elevada, dada a constelação de fatores que se reuniram neste ato eleitoral (nomeadamente a pandemia numa fase calamitosa e a recandidatura do Presidente incumbente) e ainda que não se tenham concretizado as piores previsões que foram sendo avançadas, os números são claros. Votaram menos pessoas, em termos absolutos, do que em 2016 ou 2011 e a abstenção foi superior a 60%.2

Finalmente, um novo fenómeno assumidamente antissistema ultrapassou o limiar psicológico dos 10% dos votos expressos e deve preocupar todos os que prezam a democracia, os seus valores e princípios.

Ora, em relação a isto, ressalvo a afirmação muito lúcida do primeiro Presidente da República eleito democraticamente após 1974, o General Ramalho Eanes, após ter votado no domingo. Os desiludidos têm de se empenhar em melhorar a democracia.

É nosso dever, dos grandes palcos à conversa informal e apesar de muitas vezes desalentados, desanimados e desinspirados, protegê-la e defendê-la, exigir que seja melhor e que sirva melhor os cidadãos.

No fim de contas, continuou a ser um dia feliz, como é qualquer dia de eleições. Mas já passou. Os desafios continuam monumentais (e agigantaram-se ainda mais) e uma noite escura para suceder a estes dias felizes está sempre à espreita.

1 https://www.presidenciais2021.mai.gov.pt/resultados/estrangeiro consultado a 25 de janeiro de 2021

2 https://www.presidenciais2021.mai.gov.pt/resultados/globais consultado a 25 de janeiro de 2021

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